Guilherme de Almeida - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Guilherme de Almeida
Guilherme de Almeida
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Guilherme de Almeida (Lisboa, 1950) é licenciado em Física, autor português e professor aposentado. Publicou, entre outras obras, Sistema Internacional de Unidades – Grandezas e Unidades Físicas, Terminologia, Símbolos e Recomendações, livro recomendado pela Sociedade Portuguesa de Física. Tem mais de 100 artigos publicados. Ver mais aqui e na página deste autor.

 
Textos publicados pelo autor
Um preço inexistente
A forma errónea 0,37 "cêntimos", a propósito do custo do petróleo

O começo do mês de março de 2020 fica marcado não só pela propagação da doença do coronavírus, mas também pela queda do preço do petróleo em resultado de um diferendo entre a Federação Russa e a Arábia Saudita. Um jornal português até dá conta de o petróleo estar mais barato do que a própria água, que por litro custa cerca de... "0,37 cêntimos". Mas será este o valor que se pretende mencionar? O professor Guilherme de Almeida, especialista em termos e unidades de medida, explica como a notícia exibe e reitera um erro crasso.

O autor segue a ortografia anterior à norma atualmente em vigor.

Com 2020, termina ou começa uma década? (II)
Um critério para que toda a gente se entenda

Como aqui assinalámos, o ano 2020 gerou algumas interrogações acerca de se tratar ou não do começo de uma nova década. Sobre esta questão,  depois da opinião de D'Silvas Filho, segue-se o parecer de Guilherme de Almeida, autor*  de Sistema Internacional de Medidas – Grandezas e Unidades Físicas.

 

* O autor segue a ortografia anterior à norma oficialmente em vigor, em Portugal

Marteladas na língua portuguesa
Sobre o uso do anglicismo voucher

«Um termo com pêlos eriçados, que [...] soa a pobreza vocabular, ecoa a pedantismo, transpira vaidade saloia, transborda de deslumbramento pacóvio perante a palavra estrangeira» – assim se refere Guilherme de Almeida ao uso do anglicismo voucher, que pode ser substituído por palavras bem enraizadas no português como vale, talão ou cheque e demais palavras compostas relacionadas.

O símbolo do litro "l" (letra L minúscula) foi  inicialmente adoptado pelo Comité Internacional dos Pesos e Medidas, em 1879, e confirmado em 1948.

A demasiada semelhança entre o "l" (minúsculo) com o algarismo "1", sobretudo em determinadas fontes de caracteres, tornou as leituras de volume confusas, susceptíveis de ambiguidade.

– Escrevendo, por exemplo "11 l", fica-se sem saber se estamos a indicar o número 111 (cento e onze) ou a referir onze litros.

– A indicação "2 l" significará dois litros ou representará o número vinte e um?

– Do mesmo modo "1 l" pode parecer o número onze  ou a indicação "um litro".
 
Para evitar esses inconvenientes, a 16.ª Conferência Geral dos Pesos e Medidas, em 1979, decidiu admitir, para o litro, o símbolo alternativo "L", permitindo a facultatividade de usar "l" ou "L". Trata-se de uma adopção excepcional.

Por uma questão de bom senso, ou se usa um símbolo, ou se usa outro, sendo de mau gosto misturar na mesma prosa ambos os símbolos.

Em regra, só as unidades que derivam de nomes de cientistas (por exemplo, N, símbolo do newton; W, símbolo do watt;  Pa, símbolo do pascal; Wb, símbolo do weber) têm símbolos com letra maiúscula, ou, no caso de terem duas letras (situação que decorre de já haver outro símbolo com a mesma letra), a primeira será maiúscula e a segunda minúscula. Este critério favoreceria a opção pelo "l" (dado que a palavra litro não deriva do nome de nenhum cientista).

No entanto, a eliminação de ambiguidades também deve ser tida em conta, o que leva à possibilidade d...

O bilião e a nomenclatura dos grandes números:<br> regra “<i>N</i>” e regra “<i>n</i> –1”
Nos países europeus, como Portugal, e ≠ no Brasil e EUA

nomenclatura dos grandes números foi estudada pelo Bureau des Longitudes de Paris e apresentada ao Comité International des Poids et Mesures. Neste estudo foram submetidas para discussão duas nomenclaturas diferentes, baseadas na regra N – que consagra a ordenação seguida em Portugal e na generalidade dos países europeus – e na regra  n-1 seguida no Brasil, EUA e noutros países não-europeus. 

[texto do autor na revista Gazeta da Física, Vol 37. N.º 1]