Gonçalo Neves - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Gonçalo Neves
Gonçalo Neves
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Tradutor de espanhol, francês, inglês, italiano e latim; especialista em Interlinguística, com obra publicada (poesia, contos, estudos linguísticos) em três línguas planeadas (ido, esperanto, interlíngua) em várias revistas estrangeiras; foi professor de Espanhol (curso de tradução) e Português para Estrangeiros no Instituto Espanhol de Línguas; trabalhou como lexicógrafo na Texto Editores; licenciado em fitopatologia pela Universidade Técnica de Lisboa.

 
Textos publicados pelo autor

1. A barbárie...

De acordo com o Dictionnaire Grec Français de A. Bailly (27.ª edição, Paris, Hachette, 2000, p. 347-348), o adjetivo βάρβαρος ‎(bárbaros) tinha primariamente a aceção de «estrangeiro», ou seja, «que não é grego», ou melhor, «que não é helénico». Por extensão de sentido, referia-se igualmente a tudo o que se assemelhasse às línguas e aos costumes dos povos estrangeiros, ou seja, não helénicos. Neste campo semântico mais alargado, denotava os erros cometidos contra o bom uso da língua helénica e, como os gregos estranhavam os costumes dos povos estrangeiros, adquiriu igualmente a aceção de «grosseiro», «incivilizado», e mesmo «cruel».

Em latim, apesar de a aceção de «estrangeiro» estar representada, entre outros, pelo adjetivo peregrinus, que era bastante frequente, o vocábulo grego pegou de estaca, e barbarus, de acordo com o Dictionnaire Latin-Français de Félix Gaffiot (Paris, Hachette, 2000, p. 209), passou a designar tudo o que não fosse romano ou grego e, por extensão de sentido, tal como na língua de origem, adquiriu igualmente o significado de «inculto», «selvagem», encontrando-se todas estas aceções na obra de Cícero (106-43 a. C.). Nos escritos de certos autores cristãos, significava também «pagão».

A aceção de «estrangeiro», na linguagem corrente, perdeu-se em português, subsistindo apenas no vocábulo barbarismo, quando este se refere a um estrangeirismo reprovado pelos puristas, embora haja barbarismos que não são estrangeirismos. Importa realçar que

O nosso vocábulo diálogo chegou-nos por via do latim dialogus, do grego clássico διάλογος (diálogos), e tinha, nesta língua, basicamente o mesmo significado que hoje conhecemos em português. O vocábulo grego é constituído por dois elementos: διά (diá) e λόγος (lógos).

O primeiro elemento era extremamente fecundo em grego: podia funcionar como preposição, advérbio ou prefixo, como neste vocábulo. Como prefixo, exprimia diversos conceitos: «separação», «de um lado ao outro», «aqui e ali», «de forma diversa», «um com o outro, um contra o outro», «parcialmente», «penetração», «através de», «superioridade», «acabamento, conclusão». No caso vertente, o prefixo tem o significado indicado em quinto lugar, ou seja, «um com o outro, um contra o outro». Este prefixo está presente em inúmeros vocábulos da nossa língua, herdados do grego por via do latim, ou seja, em vocábulos eruditos ou de cariz científico: diácono, diafragma, diagnóstico, diagonal, diagrama, dialeto, diálise, diâmetro

Há três tipos de arrondissement em França (isto para não falar dos outros países francófonos): arrondissement municipalarrondissement départamental e arrondissement maritime. Só o primeiro – o arrondissement municipal – é que corresponde grosso modo à nossa freguesia. No entanto, enquanto a freguesia é uma divisão administrativa existente em todo o território português, o arrondissement municipal só existe em três municípios (communes) franceses: Paris, Marselha e Lião. Portanto, tem razão o nosso consulente, mas é necessário fazer esta ressalva, pois a equivalência não é total.

No que diz respeito aos arrondissements de Paris, referidos pelo consulente (tal como aos de Marselha e de Lião), creio, pois, que faz todo o sentido traduzirem-se por «freguesias». Já na retroversão, ou seja, na tradução de português para francês, é conveniente, pelo motivo já apontado, traduzir-se freguesia por arrondissement municipal (e não simplesmente por arrondissement), pelo menos na primeira ocorrência do termo. 

A tradução de nomes de unidades administrativas pode, aliás, revelar-se algo problemática, e não há soluções definitivas para todos os casos. Por exemplo, em escrituras e noutros documentos deste teor, quando traduzidas de português para espanhol e vice-versa, o termo freguesia é normalmente traduzido por parroquia e vice-versa, embora a correspondência não seja total. Por isso mesmo, alguns tradutores optam por acrescentar ao nome traduzido, entre parêntesis e em itálico, o nome original, para desfazer qualquer dúvida...

N. E.

Em português, existem dois termos, filisteu (do latim Philistaeu‑) e filistino (do latim Philistinu‑), para designar o povo que habitava a Filisteia, um território situado no sudoeste do Levante mediterrânico e constituído por cinco cidades principais, entre elas Gaza, que é manchete frequente nos jornais em todo o mundo, e sempre pelos piores motivos. Este povo foi protagonista de constantes refregas com os israelitas, de que faz eco o Antigo Testamento, sobretudo o Segundo Livro de Samuel. O referido território confinava com o Reino de Israel a norte e com o Reino de Judá a este.

Nas traduções bíblicas em português, é filisteu o termo que prevalece, em detrimento de filistino. Já na chamada Nova Vulgata, são nada menos do que quatro os termos utilizados: Philisthim (158 vezes), Philistaeus (57 vezes), Philist(h)inus (57 vezes) e Palaestinus (6 vezes). Quanto ao território, o vocábulo Philist(h)aea, «Filisteia», aparece apenas 8 vezes, mas os tradutores recorrem por vezes a outras expressões para o designar, por exemplo: terra Philisthim (Ex 13:17, 1Rs 5:1), terra Philisthinorum (1Sam 27:1, 31:9), «terra dos filisteus», regio Philisthim (Js 13:2), regio Philisthinorum (1Sm 6:1), «região dos filisteus». O termo Palaestina, porém, não é ut...

Em busca de uma tradução para o inglês <i>membership</i>

Um dos nossos consultores – Luciano Eduardo de Oliveira – confrontou-se com o seguinte problema de tradução: «[Num texto alemão] que estou a traduzir aparece muito a palavra Mitgliedschaft, equivalente ao inglês membership e ao espanhol membrecía. Na maioria das vezes dou voltas à frase para evitar o problema, mas pergunto-me se não há mesmo um termo em português para isso. Pensei em filiação, mas às vezes essa palavra também não cabe.» Em busca de uma tradução adequada das palavras em causa, entre elas membership, outro consultor, Gonçalo Neves, elaborou o comentário que adiante se apresenta.