D´Silvas Filho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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D´Silvas Filho
D´Silvas Filho
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D´Silvas Filho, pseudónimo literário de um docente aposentado do ensino superior, com prolongada actividade pedagógica, cargos em órgãos de gestão e categoria final de professor coordenador deste mesmo ensino. Autor, entre outros livros, do Prontuário Universal — Erros Corrigidos de Português. Consultor do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

 
Textos publicados pelo autor

Na literatura, foi criado o discurso indireto livre, para que se tenha a liberdade de misturar discurso direto e indireto sem necessidade de travessão ou aspas. Ora, a ausência destes sinais gráficos de pontuação é o sinal de que o autor está a usar o discurso indireto livre, para que o leitor esteja atento à distinção. Muitas vezes, porém, a liberdade é tal, que o leitor fica confundido. Temos exemplos típicos na literatura dos nossos dias, com autores que me dispenso de citar porque não sou crítico literário e todos os viandantes da escrita me merecem respeito.

No caso em apreço, deseja-se distinguir o discurso direto do indireto, dado que foi usado o travessão. Nestes casos, põe-se o problema de haver necessidade de se cumprirem as regras. Caso contrário, a confusão pode ainda ser maior.

Analisemos cada uma das frases em apreço:

A «– Nem desses plenários tive conhecimento. – Garanti. – Nada tenho a ver com isso.»

O primeiro travessão introduz o discurso direto na narrativa, o segundo passa à narrativa e o terceiro volta ao direto.

O que um dos meus mestres na língua me ensinou é que, se na escrita dum diário pode não haver grande preocupação com as interpretações erradas, normalmente esta preocupação é fundamental para que a mensagem seja exatamente a que desejamos transmitir.

Na pontuação usada na frase A, o que é que a personagem garantiu? O texto antecedente ou o sequente? Era o antecedente? Então seria preciso fazer a ligação:

«– Nem desses plenários tive conhecimento –, garanti. – Nada tenho a ver com isso.»

Mas é o sequente? Então, seria...

Esqueçamos as regras do tratado sobre a pontuação de Rodrigo Sá Nogueira, que na prática aconselhava sempre a vírgula a separar orações; esqueçamos mesmo o apreciável rigor na virgulação que usa a empresa que me faz a correção de texto e invoquemos, antes, o meu saudoso mestre na língua Neves Henriques: «A vírgula não separa só, a vírgula pode mudar o sentido». Lembrava o exemplo canónico: “Cristo morreu, não está aqui”, oposto a: “Cristo morreu, não, está aqui”. É preciso sentir a língua, dizia ele, deixar correr o rio entre as margens ...também critério que tem sido desta nossa Ciberdúvidas «no contributo que tem prestado aos falantes de língua portuguesa», nas suas palavras, com mais razão aqui aplicadas.

Assim, nesta orientação NH, vejamos como interpreto a sua questão.

1.   Não há dúvida de que, quando as condições para que se realize uma ideia de base antecedem a sua expressão, é necessária a vírgula, para marcar uma pausa significando que deve ser memorizado o que foi dito, aguardando-se a completude.  “Se ele não vier," (fixemos e aguardemos que se explique o que é que acontece) "vou procurá-lo."

2.  O que é normal é que a uma ideia de base se sigam os esclarecimentos e condicionantes para que ela se realize. No caso de nada ser preciso acrescentar, a ideia não é incoerente se isolada. "Vou procurá-lo". Nesta afirmação, assim isolada, não haveria condições. Contudo, há e são taxativas:  só "se amanhã ele não vier”. Na forma como sinto a língua, e a menos que quisesse fazer uma pausa de sublinhado, eu escreveria a restrição sem separação da ideia base, porque lhe está intimamente ligada.: "Vou procurá-lo se amanhã ele não ...

Em primeiro lugar, vamos esclarecer que o ponto faz parte da abreviatura duma palavra, significando que no signo usado para o conceito faltam elementos. O que se convencionou foi que ponto a seguir a ponto, no fim de um período, é uma redundância, e suprime-se um deles. Contudo, nesse caso, não é o ponto da abreviatura que é dispensado, pois o seu sentido é indispensável na abreviatura; o que se passa é que esse ponto da abreviatura fica com a dupla missão de representar também o ponto final.

Assim, não é legítimo dispensar o ponto habitual duma abreviatura quando seguido de outro sinal de pontuação. A abreviatura de observação convencionada é obs., logo, deve escrever-se Obs.: não Obs:.

O critério é o mesmo quanto à abreviatura de ordinais. Deve escrever-se 1.º, 2.º, etc. e não , , pois haveria ambiguidade na representação (ordinal, grau, ou potência zero?). Os pontos, neste caso, têm o significado de converterem os algarismos, com os respetivos sobrescritos, num signo que substitui as palavras primeiro, segundo, etc., e repare-se que os efeitos que se convencionam para o ponto não dependem da sua posição: nos ordinais não podia ficar depois do sobrescrito.

Ao seu dispor,

A primeira vírgula obedece à regra de a copulativa e ser antecedida de vírgula quando o sujeito é diferente.

A segunda, à regra, aplicável neste caso, de que na omissão de um elemento fundamental numa expressão, uma vírgula deva ser inserida. A utilidade da vírgula não será, então, uma pausa, uma separação, um sublinhado, nas suas múltiplas funções, mas aqui uma chamada de atenção para o facto de que a expressão está incompleta e de que só é esclarecida no contexto.

Devemos seguir as regras, para que o entendimento seja geral. As gramáticas e os prontuários apresentam múltiplos exemplos nos quais a presença ou a ausência de uma vírgula implicam sentidos diferentes à expressão. É preciso ter cuidado na pontuação.

Contudo...

Serão sempre indispensáveis as vírgulas?

Parecer pessoal

Se suprimirmos a primeira vírgula, não é por isso que os sujeitos se deixam de distinguir, pois o verbo está no singular: «O João foi.»

Se suprimirmos a segunda, com as duas expressões seguidas, o intelecto deduz que o verbo omisso é o mesmo: «o Manuel (igualmente) foi», num raciocínio de nível superior, com risco, do tipo: se a ação fosse diferente, seria indicada (estamos já nesta fase nos robôs?).

Rodrigues Lapa, na sua Estilística da Língua Portuguesa, defendia que a estilística era também a arte de subverter as regras para dar mais intensidade à escrita.

Na minha opinião, e considerando as pausas que ficariam implícitas, a expressã...

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A reafirmação do autor sobre a importância do trema para a distinção da pronúncia do u – que se enquadra no seu conceito «de que devem ser facultativas e não proibidas as utilizações gráficas na língua que facilitem a aproximação com a pronúncia do falante» –, em referência ao artigo do jornalista Nuno Pacheco, Ascensão e queda dos pontinhos voadores.