Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Carlos Rocha
Carlos Rocha
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Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres (entre 1992 e 1997). Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.

 
Textos publicados pelo autor

O registo mencionado na pergunta está correto, porque oleo- é usado como prefixo (ou melhor, radical), e não se acentuam graficamente – nem mesmo quando são separados por hífen – os prefixos com acento prosódico próprio que se ligam graficamente ao elemento prefixado. Por outras palavras, assim como não se apõe o acento em oleorresinoso, também não é ele escrito sobre o primeiro elemento de oleo-hidráulico. O hífen deste caso deve-se ao facto de o elemento prefixado começar por h (hidráulico).

Esclareça-se que, no quadro da anterior norma ortográfica (1945), este princípio já era aplicado a certos prefixos que só eram seguidos de hífen sob determinada condição. Lê-se nas Bases Analítcas do Acordo Ortográfico de 1945, sobre hiper, inter- e super-:

«5.°) [Emprega-se o hífen em] compostos formados com os prefixos hiper, inter e super, quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por h ou por um r que não se liga foneticamente ao r anterior: hiper-humano; inter-helénico, inter-resistente; super-homem, super-requintado

Observa-se nesta passagem que os prefixos hiper-, inter- e super- não passam a ter aposto nenhum acento gráfico antes de hífen, apesar de terem acento tónico na primeira sílaba. Perante estes casos, é de inferir que outros em condições semelhantes, isto é, só seguidos de hífen em contextos especiais, também alinhem pelo mesmo princípio (cf. Acordo Ortográfico de 1990, Base XVI, 1.º). É, portanto, este o caso de oleo-.

No entanto, há prefixos que se escrevem sempre com acento agudo e são sistematicamente seguidos de hífen, de harmonia com outro preceito que  já se encontrava na norma de 1945 e que a norma em vigor não alterou:

...

Não foi possível colher informação informação sobre a história factual de tal fórmula de despedida, é de supor que tenha por base enunciados como «até nos vermos mais uma vez».

É uma variante de «até mais ver», registada por João Nogueira Santos, em Novos Dicionários de Expressões Idiomáticas (Lisboa, Edições João Sá da Costa, 2006):

«até mais ver: forma de despedida que sugere uma longa separação.»

No entanto, esta fórmula parece hoje ocorrer numa situação de despedida, mesmo que o reencontro não esteja assim tão distante, conforme atesta o Dicionário Houaiss:

(1) «até mais ver: até logo, até a vista.Ex.: <agora parto> <até mais ver>.»

Dado que a fonte deste exemplo é do Brasil, poderia supor-se aqui um brasileirismo, mas não é certo que o seja, porque pode ocorrer também em Portugal:

(2) «Pronto, eu vou andando; até mais  ver (logo nos  tornaremos a ver)» (Énio Ramalho, Dicionário Estrutural,Estilístico e Sintático da Língua Portuguesa).

A palavra pronuncia-se sem u audível – pronuncia-se /bɐgĩ/ – e tem duas sílabas: ba.guim.

Note-se que, mesmo que o u tivesse realização fonética – que não tem1 –, a palavra continuaria ter duas sílabas, tal como sucede com pinguim, porque a sequência gu forma uma unidade cujo u se associa à vogal seguinte num ditongo crescente.

Acrescente-se que, do ponto de vista etimológico Baguim (o topónimo completo é Baguim do Monte, no concelho de Gondomar), terá origem na expressão latina medieval «(villa) Baquini»1. Assinale-se, porém, que a forma medieval pode já ser o resultado da alteração fonética de um antropónimo mais antigo, Baculinus, derivado do também antropónimo Baculus, talvez de origem céltica3. Na Galiza, na província de Pontevedra, encontra-se o topónimo Bagüín (concelho de Marín), que parece ter a mesma proveniência.

 

1 É um nome bem conhecido na região do Porto, e pode confirmar-se que o topónimo se articula sem u. Há uma estação de metro com este nome, que serve a localidade em apreço.

2 Cf. José Pedro Machado, Dicionário Onom...

A construção temporal com faz , relativa ao tempo decorrido, é correta e encontra-se atestada em várias fontes, incluindo dicionários elaborados em Portugal, como se pode verificar  pelos seguintes exemplos:

(1) «Faz um mês que ele chegou» (Mário Vilela, Dicionário do Português Básico, Porto, Edições Asa, 1991, s. v. fazer).

(2) «Faz duas horas que estou aqui à espera» (Academia das Ciências de Lisboa, Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, 2001, s.v. fazer).

(3) «Já faz um ano que não o vejo» (J. Malaca Casteleiro, Dicionário Gramatical de Verbos, Lisboa, Texto Editores, 2007, s.v. fazer).

Trata-se de uma construção equivalente à construção com – «há um mês/duas horas/um ano» –, embora seja mais corrente no Brasil1 do que em Portugal. Convém, aliás, acrescentar que há falantes de Portugal que só aceitam frases como (1) desde que nelas ocorra «um advérbio ou locução adverbial que introduz o momento de referência»2. Por outras palavras, tais falantes preferirão «faz hoje um mês que ele chegou»3.

Este uso parece decorrer de uma diferença entre a locução introduzida por («há um mês») e a introduzida por faz («faz um mês»): com , o momento de referência é o tempo da enunciação, isto é, o tempo em que o falante produz o enunciado (ex.: «o Pedro casou-se com a Joana há...

A forma "Candam" configura uma resistência antiga à grafia contemporânea do topónimo, que só poderá ser Candão, visto que -am só ocorre na escrita das formas verbais, desde a Reforma Ortográfica de 1911.

Trata-se de um topónimo cuja sequência inicial (ou radical) – cand- – ocorre com alguma frequência no ângulo NW da Península, englobando as Astúrias (Cándanu)1, as regiões de tradição leonesa, a Galiza (Candán)2 e o território português até ao Mondego e ao Sistema Central. Este elemento parece ter origem pré-romana, embora o latim candidus, «branco», não lhe seja estranho, que faz supor que se trata de elemento de origem indo-europeia. O seu significado terá passado por certa variação e evolução semântica -- de «pedra,rocha» e «areia» a «branco» --, pelo que a toponímia permite avaliar (cf. Fernando Cabeza Quiles, Toponimia de Galicia, 2008, p. 144/145).

O historiador A. Almeida Fernandes (Toponímia Portuguesa. Exame a um Dicionário, 1999) não refere diretamente Candão, mas comenta Canda (nos concelhos de Melgaço e Ribeira de Pena) e Candeeira" (nos concelhos de Anadia, Cinfães, Ponte de Lima, Redondo,V. N. Famalicão, Vouzela e na Galiza) , aos quais associa Candal e Candosa, que interpreta como originários de palavras referentes a terrenos rochosos. Para este autor, teria havido em tempos recuados um vocábulo nominal e/ou adjetival com a forma *candano. É plausível propor que Candão se filie ne...