«Visite a bienal curada por x»?
Curador vs. curar
O termo curador passou a ser comum em contextos relacionados com o meio artístico, museológico ou das indústrias criativas. Encontramo-lo em títulos recentes como «Novo curador de artes visuais da Culturgest, Raphael Fonseca espera "escrever novas páginas"» (jornal Observador) ou «A arte contemporânea e os seus curadores» (jornal Público), entre outros.
Neste contexto, o curador é, assim, a pessoa a quem cabe a escolha e a organização dos objetos ou obras de arte, conforme nos explica o dicionário Houaiss. Trata-se de um uso relativamente recente que nem todos os dicionários registam ainda.
Os significados mais antigos de curador são de âmbito médico, estando relacionados com a designação daquele ou daquilo que cura determinada doença, ou de natureza jurídica, quando designa o membro do Ministério Público a quem cabe defender a lei. Encontramos as raízes destes valores semânticos no termo latino curator, que tinha o significado de «o que cuida, encarregado de zelar, comissário, tutor, rendeiro, caseiro», próximo, portanto, dos sentidos mais comuns de curador.
Curioso é que a expansão dos significados de curador está também a estender-se, de forma estranha, ao verbo curar. É comum ouvirmos ou lermos «A vacina terapêutica curadora da doença x está a curar todos os seus doentes.» ou «A doença foi curada pelo médico.», situações nas quais curar é usado com o valor de «recuperar a saúde» ou «debelar uma doença». Já não é tão familiar aos nossos ouvidos a associação de «curador de arte» ao verbo curar, em construções como «O curador da bienal começou a curar a exposição» ou «Uma bienal curada por X». Este é, na verdade, um uso que se encontra previsto no dicionário Houaiss, mas que não encontramos ainda em dicionários de português europeu, como o Dicionário de Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, o dicionário Priberam ou a Infopédia, o que se alinha com a estranheza provocada por este uso incomum do verbo curar.
Recordemos, a título de reflexão final, que o uso neológico do verbo curar de que aqui falamos não está a preencher um vazio lexical no português porque, na verdade, a língua está dotada de vários recursos que permitem dizer o mesmo com a mesma expressividade e clareza:
«O curador da bienal começou a conceber a exposição» / «Uma bienal concebida por X».
«O curador da bienal começou a coordenar a exposição» / «Uma bienal coordenada por X».
«O curador da bienal começou a organizar a exposição» / «Uma bienal organizada por X».
«O curador da bienal começou a selecionar as obras para a exposição».
«O curador da bienal começou a estruturar/montar a exposição».
