Rir para não chorar - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa Pelourinho Artigo
Rir para não chorar
Rir para não chorar
Traduções tristemente hilariantes

«O livro nunca foi editado em Portugal, mas continua a ser reeditado por várias editoras língua inglesa, como a Collins – na secção de livros de humor – e a sua popularidade perdura até aos dias de hoje [...].»

 

Um ilustre desconhecido de seu Pedro Carolino, viu, corria o ano de 1883, um seu livrinho publicado nos Estados Unidos e na Inglaterra, que imediatamente se tornou um best-seller, com prefácio encomiástico de Mark Twain e tudo, onde se lê que «Não haverá nunca ninguém capaz de prelevar o absurdo que é este livro». O livro em causa é O Novo Guia de Conversação Português e Inglês e tinha a boa intenção de iniciar os falantes de português na arte bem de falar o inglês do dia a dia. O único senão era que o autor não sabia rigorosamente nada de inglês. O livro nunca foi editado em Portugal, mas continua a ser reeditado por várias editoras de língua inglesa, como a Collins – na secção de livros de humor – e a sua popularidade perdura até aos dias de hoje: na Amazon a edição em papel disponível é de 2016 e o livro até tem uma edição Kindle, de 2018.

O disparate começa no título: English as she is spoke e termina nas expressões idiomáticas, com pérolas como With a tongue one go to Rome (o suposto equivalente para «Quem tem boca vai a Roma»); He has me take out my hairs (que, imaginamos, será «estar pelos cabelos»)[*] ou He do the devil a four (a brilhante tradução para «o Diabo a quatro»).

As traduções literais de sintagmas deram sempre resultados disparatados, capazes de pôr a rir as almas mais sisudas. Mas parece que hoje já não é assim, sobretudo se o processo de tradução absurda for no sentido inverso, do inglês para o português, e perpetrada por jornalistas e comentadores encartados e nos mais variados meios de comunicação institucional. Não só ninguém lhes acha piada, como não são sequer sentidas como absurdas ou pedantes. Por exemplo, dizer «Ao final do dia», um decalque sem sentido nenhum da expressão at the end of the day, quando a intenção é dizer Ao cabo e ao resto; ou dizer «Ele não realizou que o estavam a enganar» uma tradução estruturalmente impossível para «He didn’t realize that…»

Apetece chorar, mas ninguém chora, grita o poeta. Neste caso é mais: Apetece rir, mas ninguém ri…

[* estar pelos cabelos = estar farto, estar irritado]

 

Cf. Para Mark Twain, ninguém ensinou inglês como Pedro Carolino +  O novo guia de conversaão em portuguez-inglez 

Fonte

Texto de Ana Sousa Martins para a rubrica "Cronigramas" do programa Páginas de Português, transmitido pela Antena 2 em 19/05/2019.

Sobre a autora

Mestra e doutora em Linguística Portuguesa, desenvolveu projeto de pós-doutoramento em aquisição de L2 dedicado ao estudo de processos de retextualização para fins de produção de materiais de ensino em PL2 – tais como  A Textualização da Viagem: Relato vs. Enunciação, Uma Abordagem Enunciativa (2010), Gramática Aplicada - Língua Portuguesa – 3.º Ciclo do Ensino Básico (2011) e de versões adaptadas de clássicos da literatura portuguesa para aprendentes de Português-Língua Estrangeira.Também é autora de adaptações de obras literárias portuguesas para estrangeiros: Amor de Perdição, PeregrinaçãoA Cidade e as SerrasContos com Nível é o seu último livro. Consultora do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa e responsável da Ciberescola da Língua Portuguesa