/Félis/, tal como quer e diz, sempre, Bagão Félix - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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/Félis/, tal como quer e diz, sempre, Bagão Félix
/Félis/, tal como quer e diz, sempre, Bagão Félix

A propósito da vitória da atleta portuguesa Dulce Félix nos 10 000 metros dos Campeonatos  Europeus de Atletismo, em Helsínquia, voltou a ouvir-se a pronúncia errada de “Féliks”.

Não obstante tudo o que aqui já se esclareceu – e até se encontra exemplificado no Prontuário Sonoro da RTP –, o descuido generalizou-se no audiovisual português. Foi, agora, com Dulce Félix como é, quase sempre, com a cantora Susana Félix. E só não acontece com o político Bagão Félix, porque ele não deixa que o atropelem com o “Féliks”...

Valerá então a pena voltar-se ao tema, transcrevendo-se a seguir a explicação de Maria Regina Rocha no livro sobre a 1.ª série do programa Cuidado com a Língua!1:

 

«A sílaba final [do apelido Félix] pronuncia-se como a sílaba final da palavra lápis, como é referido [no programa número 2 desta primeira série] Bagão Félix.

«Os nomes portugueses terminados em x vieram directamente do nominativo latino (e não do acusativo, como é a regra geral) e mantêm em geral em português a pronúncia latina /ks/ (Fénix, ónix, tórax, clímax, córtex, Ájax, etc.), pois entraram tardiamente no português (no século XVI ou seguintes), importados directamente do latim, sem evolução.

«As excepções são cóccix (/cóccis/), por questões de eufonia, e o antigo cálix (/cális/), do vocabulário litúrgico, que entrou no português muito cedo, havendo registos escritos com /s/ final no português antigo, no séc. XIII.

«Quanto a Félix, a grafia latina aconselharia a pronúncia em /ks/, mas esta palavra também entrou no português muito cedo, ainda na fase da formação da língua, aparecendo já no século XI registada como Felici e Felice, sendo, pois, esta a pronúncia que existia e perdurou, mesmo quando se recomeçou a grafar Félix.

«Por outro lado, no caso de nomes próprios ou de nomes de família, deve ser respeitada a tradição familiar no que diz respeito à pronúncia de nomes que não seguiram a regra geral na passagem do latim para o português. Assim, se a família pronuncia /félis/ há séculos, essa pronúncia deve ser respeitada.»

 

1 Edição Oficina do Livro, Lisboa, 2008, publicada ainda com a ortografia de 1945.

Sobre o autor

Jornalista português, cofundador (com João Carreira Bom) e responsável editorial do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Autor do programa televisivo Cuidado com a Língua!, cuja primeira série se encontra recolhida em livro, em colaboração com a professora Maria Regina Rocha. Ver mais aqui.