Todos inocentes, todos cúmplices - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Todos inocentes, todos cúmplices
Todos inocentes, todos cúmplices
Uma evocação do autor da celebrada frase «O óbvio ululante»

 

« (...) As frases e imagens de Nelson Rodrigues (1912–1980) eram devoradas pelos leitores e repetidas por eles no dia-a-dia. (...)»

 

Em 1969, há exatamente 50 anos, Nelson Rodrigues escreveu, em sua coluna no jornal O Globo: «Em Brasília, todos são inocentes. E todos são cúmplices.» Era uma frase intrigante porque, então, Brasília tinha apenas nove anos como capital do Brasil e, na verdade, nem o era ainda de facto – grande parte da máquina governamental, os ministérios, os tribunais de Justiça, a presidência dos bancos e, principalmente, o corpo diplomático, todos continuavam na velha capital, o Rio [de Janeiro]. Mas a corrupção – tratada com ironia por Nelson – já tinha enviado para Brasília seus praticantes.

Nelson Rodrigues escrevia três crónicas por dia, todos os dias: duas no Globo, uma das quais sobre futebol, e outra também sobre futebol no Jornal dos Sports, que fora fundado por seu irmão Mario Filho. Fazia-o pelo dinheiro – era sua única fonte de renda estável, sendo o teatro uma fonte apenas ocasional. Para atender a esta absurda produção, Nelson se valia de uma galeria de imagens e expressões que ia inventando no decorrer do ano e passava a usar sempre que a ocasião permitia. Seus leitores adoravam isto – e passavam a repeti-las entre si, no dia a dia. Eis algumas:

«O sol de derreter catedrais» era uma imagem para definir o Rio no verão. O «mau tempo de 5.º ato do Rigoletto» queria dizer muita chuva. «Sentar no meio-fio e chorar lágrimas de esguicho» explica-se por si, sendo o meio-fio a maneira como os cariocas chamam a beirada do passeio. Quando um sujeito se irritava muito, Nelson dizia que ele «subira pelas paredes como uma lagartixa profissional». O próprio Nelson, com a quantidade de colunas diárias que tinha de escrever, dizia que trabalhava como um «remador de Ben-Hur» – lembra-se do filme? E havia o «débil mental de babar na gravata», a «vizinha gorda e patusca», o «fauno de tapete».

O brasileiro, segundo ele, era «um narciso às avessas», que «cuspia na própria imagem». As pessoas que o abordavam na rua, como se fossem velhos amigos, mas que ele nunca tinha visto, eram os seus «desconhecidos íntimos». Quando, naquela época, os padres brasileiros começaram a trocar a pregação religiosa pela doutrinação política, Nelson escreveu: «O Brasil ainda será o maior país ex-católico do mundo.» Não sei se foi pelo motivo que ele apontou, mas, a continuar o inacreditável crescimento das seitas evangélicas e pentecostais dos últimos trinta anos no Brasil, sua profecia se realizará.

Nelson dizia que «só os profetas enxergam o óbvio». E exemplificava com a história de seu amigo Otto Lara Resende, que, durante anos, passou de carro todos os dias em frente ao Pão de Açúcar e nunca o vira. Um dia, casualmente, Otto olhou pela janela e viu a monumental pedra na baía de Guanabara. Freou de repente na pista de alta velocidade, saiu alucinado do carro e, tendo palpitações, apontava para o Pão de Açúcar e exclamava: «De onde saiu? De onde saiu? Ontem não estava aqui!» As pessoas que pararam atrás dele tiveram de abaná-lo. E Nelson concluía: «Era o encontro triunfal do Otto com o óbvio. O óbvio ululante!»

Nelson era um permanente apaixonado. Dizia que «todo amor é eterno; se não é eterno, não era amor» e que o segundo casamento era «o adultério com guaraná, salgadinhos e convidados». Mas ele próprio se casou, não uma nem duas, mas três vezes, sendo o terceiro casamento, de novo, com sua primeira mulher. O importante, para ele, era o amor: «O amoroso é sincero até quando mente.» E outra: «O dinheiro compra até amor verdadeiro.» Nelson, que não falava nem escrevia palavrões, acreditava: «Todas as palavras são lindas. Nós é que as corrompemos.» Outra de suas obsessões era a nudez: «O biquíni é a nudez pior que a nudez.» Mas, para ele, havia algo ainda mais condenável: «O rosto é a parte mais obscena do ser humano. Do pescoço para baixo, podíamos andar nus.»

Nelson gostava dos loucos. Seus favoritos eram os sujeitos que pensavam ser Napoleão. E explicava: «O verdadeiro Napoleão é o Napoleão de hospício – porque não teve o seu Waterloo.» Numa época, fins dos anos 60, em que os jovens estavam botando fogo nos costumes e se julgando donos do mundo, Nelson recusou-se a se juntar ao coro de velhos que tinham passado a adulá-los. «Os jovens têm todos os defeitos dos adultos e mais um − o da inexperiência», dizia. E aconselhava: «Jovens de todo o mundo, envelheçam!»

Quanto à frase sobre Brasília, depois dos treze anos de inacreditável corrupção promovida pelos governos de Lula e Dilma, o de Bolsonaro, que acabou de se instalar prometendo ser o mais incorruptível de todos, já começa a ter falcatruas denunciadas. E, como os anteriores, também se diz inocente. Nelson tinha razão: todos são inocentes – e todos são cúmplices.

Fonte

Artigo do jornalista e escritor brasileiro Ruy Castro − autor, entre outras obras, de O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues (ed. Tinta da China) –, publicado no Diário de Notícias de 2 de fevereiro de 2019.

Sobre o autor

Ruy Castro (Caratinga, 1948) é um jornalista e escritor brasileiro. Cronista da Folha de S Paulo e no Diário de Notícias, sendo autor de várias biografias de celebridades, como Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, por exemplo Com o seu livro Carmen: uma biografia, ganhou o Prémio Jabuti, em 2006. Da sua obra, destacam-se ainda: O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues (1992),  Bilac vê estrelas (2000), O Pai que era Mãe (2001),  Era no tempo do rei: um romance da chegada da corte (2007) e Carnaval no Fogo – Crônica de Uma Cidade Excitante demais.