O que mudou na acentuação atual (III) - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O que mudou na acentuação atual (III)
O que mudou na acentuação atual (III)
As palavras graves e agudas

Tendo em conta as Bases IXX do Acordo Ortográfico de 1990  que regulam a nova ortografia no que diz respeito à acentuação, o acento agudo é facultativo na 1.ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo dos verbos regulares da 1.ª conjugação: «Hoje, cozinhamos um prato de peixe.» / «Ontem, cozinhámos um prato de carne.»

É igualmente facultativo o acento circunflexo na 1.ª pessoa do plural do presente do conjuntivo do verbo dar. Vejamos os seguintes exemplos: «Ontem, demos uma ajuda ao teu pai» (1.ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo do verbo dar). Oxalá lha dêmos /demos no próximo ano também (1.ª pessoa do plural do plural do presente do conjuntivo do verbo dar).

Todas as palavras paroxítonas ou graves com o ditongo ‘oi’ na sílaba tónica perdem o acento gráfico. Exemplos: azoia, boia, estroina, heroico, introito, jiboia, paranoico, tiroide. Estas palavras seguem o exemplo de comboio, boina, dezoito, que já não eram acentuadas.

As formas verbais paroxítonas da 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo ou do conjuntivo (em que o e tónico está em hiato com a terminação -em) deixam também de ser acentuadas graficamente. Veja-se os seguintes exemplos: creem, deem, descreem, leem, preveem, releem, reveem, veem.

Nas palavras oxítonas (agudas) e paroxítonas (graves), as formas não são acentuadas graficamente, quando a vogal tónica é o ‘u’ pertencente ao tema.

Deste modo, é eliminado o acento na letra ‘u’ dos poucos casos de terminações verbais gue (s), que (s), gui (s) e qui (s) que o tinham, como nos casos de averigúe (averigue); obliqúe (oblique); delinqúis (delinquis). Importa ter em conta que as formas como a da 1.ª pessoa do pretérito perfeito do verbo arguir, arguí, tendo como vogal tónica a letra ‘i’ e não ‘u’, como enuncia a regra, mantém o acento gráfico.

Assim, vejamos as formas do presente do indicativo do verbo delinquir (pecar, incriminar-se) que perdem o acento gráfico: delinquo, delinquis, delinqui, delinquem. O mesmo acontece com arguir (condenar, acusar, culpar) – arguo, arguis, argui, arguem – e redarguir (recriminar, contestar): redarguo, redarguis, redargui, redarguem.

Sobre a autora

Professora de Português e Francês no ensino secundário, na Escola Secundária Inês de Castro (Vila Nova de Gaia). Licenciada em 1992 pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tem mais de trinta livros (escolares, romances e infantis) publicados, entre os quais se contam Português atual, Manual do Bom Português Atual, Língua Portuguesa e Matemática, bem como edições escolares do Auto da Barca do Inferno e de Os Lusíadas. Formadora na área de Língua Portuguesa, em centros de formação para professores, em colégios privados, na Universidade Católica, na  Sonae, no Jornal de Notícias, no Porto Canal; a convite do Instituto Politécnico de Macau, em 2014, deu também formação a professores universitários chineses. Desde 2012, mantém uma crónica semanal no Jornal de Notícias, intitulada "Português Atual". Foi responsável por uma rubrica diária sobre língua portuguesa no Porto Canal. Elaborou um contributo para o grupo de trabalho parlamentar para avaliação do impacto da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. Em 2018, foi-lhe atribuída a medalha de mérito cultural pela Câmara Municipal de Gaia.