Moucos - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Histórias de palavras

Vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa.

 

O meu amigo Nestor e eu temos andado numa roda-viva, organizados em tandem, a passar a pente fino volumes pesados e leves em busca de palavras que possam interessar a um auditório mais vasto ainda do que aquele que tem seguido estas crónicas, já que sem crescimento não há economia e sem economia não há orçamento e sem orçamento não há estipendiozinho, que é a mola real que faz mexer os vertebrados do Mundo Ocidental, um muito descaracterizado Mundo Ocidental que já inclui partes importantes do Oriental.

Mas não deixando, desta vez, que a tergiversação se desencaminhe da arte para chegar a terrenos de areias movediças que engolem leitores, passo imediatamente a identificar o móbil útil da presente investigação: palavras variantes. Todos as conhecemos bem. Tão bem, aliás, que a maior parte das vezes não sabemos que são variantes nem de que primeira forma provêm. Pois bem, entremos um pouco, se quiserem, nessa curiosidade (e espero que queiram, pois para organizar esta demonstração tive de abdicar de acabar a leitura de O Sangue, de Camilo Castelo Branco, de 1868, e da autobiografia de Benvenuto Cellini, de 1562). 

Em vez de dizermos que, “por qualquer razão”, utilizamos mais as variantes do que as primeiras formas de várias palavras, digamos, com alguma coragem, que é, principalmente, por duas razões: dificuldade de pronúncia e falta de ouvido. Há sequências fonéticas que, aparentemente, o grosso dos falantes não aprecia ou cuja reprodução é custosa para o aparelho vocálico mais económico. Ou, dito de outra forma, porventura mais inteligível em certas esferas: a língua não chega (lá). Então, alteram-se os sons à vontade do freguês. Esta prática, somada a uma proverbial dureza de ouvido que nos fez produzir peças musicais com a complexidade e a subtileza de um Malhão, sem dúvida pela nossa ligação directa aos homens de Neandertal, explica – se explicar se pode – a marca máxima de estropiamento de palavras herdadas de um Séneca, de um Cícero, de um Santo Agostinho. Antes, sem livros, preferiu-se a “via profissionalizante” do linguajar das tropas das guarnições romanas. Agora, com livros, continuamos a preferir o linguajar da malta das guarnições das “redes sociais” (e sempre que ouço esta expressão, lembro-me das redes dos arrastões que criminosamente rapam o mar de toda a fauna que lhe dá vida).

Abreviemos. Do que pretendia falar (sem desprimor para o resto, sobre o qual acabo por falar, mesmo não querendo) era de exemplos como o vulgar “atazanar”, cujo significado ninguém desconhece, seja pelo conhecimento linguístico, seja pelo prático de sofrerem a influência de alguém que não se devota ao melhoramento da humanidade, mas à descoberta de como se desmancham as carnes dos seres viventes circunvizinhos, à força de bicadas contundentes, ora mecânicas, ora discursivas. Mas “atazanar” não faz justiça nem ao algoz nem às suas vítimas, pois é falho em comunicar a clareza da primeira forma de que esta deriva: atenazar. Esta, sim, mostra perfeitamente a tenaz com que nos agarram, para nos virarem na grelha das teimosias e das obsessões diárias com que nos querem passar bem o lado que ainda estava mal passado. De tenaz, atenazar. Mas como atenazar soma ainda a tenaz da difícil pronúncia, em vez de “não me atenazes!”, sai “não me atazanes!”, e siga a viagem até aos dicionários sem anotações informativas das diferenças formativas. 

Gostaram do exemplo? É muito comum no nosso país – tanto o pontapé na gramática como o pontapé no ser humano que “está mais à mão” de semear. Para muitos pés, o melhor tapete não é o persa, é o de corpos rasteirados durante a ascensão (reclamem quando lerem “ascenção” em livros publicados) ao poder ou ao poderzinho, imaginário ou real, que é a pior forma de imaginário. Aliás, para estes pés, não é preciso tapete, basta um capacho.

Mas tentemos exemplos mais felizes, pois é urgente contribuir para o contentamento geral. Não queria ser eu a chocar os leitores com o aviso de que a humanidade nem sempre é uma irmandade. E que os nossos semelhantes, estranhamente, nem sempre se dedicam a afinar liras, cítaras e harpas para delas tirarem delícias fónicas higiénicas ou a harmonizar cantos corais com que poderiam molificar almas inquietas ou mortificadas. Não é prioritário.

O caso de “catrafada” parece-me exemplar. Hoje, chamar-se-ia um caso paradigmático ou um estudo de caso ou caso de estudo, que é a tradução que querem que aceitemos de “case study”. “Catrafada” acho que nem os dicionários online se atrevem a integrar sem problemas de consciência (científica), já que é corruptela de catrefada (magote, grande número). Ora, por sua vez – e aqui é que o caso tem circunvoluções que nos mantêm atentos – catrefada baseia-se em catrefa, que – bravo, adivinharam-no! – é uma corruptela de caterva, do latim caterva, que significava “turba, corpo de tropas bárbaras”. 

Outro caso: “refastelar-se”, no nosso linguajar mais descontraído, perde o sentido de festa que os filólogos lhe atribuem como núcleo. E embora não tenha existido o mais literal “refestalar-se”, podemos notar que em refestelar-se está lá a pista de festa e em “refastelar-se” não está nada. A não ser, talvez, uma sugestão de sujeito de boné em camisola interior de alças e calças de fato de treino a beberricar latas de cerveja às meias dúzias diante do televisor, assim na linha do parente pobre da dona de casa pedante da série inglesa Keeping Up Appearances. “Vocês sabem do que eu estou a falar…”

O dezasseis, o dezassete, o dezoito e o dezanove, pela dificuldade, em Portugal, em dizer dezesseis, dezessete, dezenove (no Brasil, atrevem-se a dizê-lo e a escrevê-lo), perderam a pista do dez e seis, dez e sete, dez e nove, significando, respectivamente, dez mais seis, dez mais sete, dez mais nove (o “dezeoito”, tanto quanto sei, nem no Brasil sobreviveu…)[1].

Um “catrapaço” é um cartapácio, livro grande antigo ou colecção de manuscritos em forma de livro, com origem na expressão latina charta pacis (documento da paz), que deu, depois, chartapacia.

Não se escreva “encazinar”. A forma correcta é encanzinar (arreliar, irritar) e vem de cão.

O áudio “pespineta”, como significando rapariga tagarela e irrequieta e provavelmente cabeça-de-vento, ouve-se lá para o Centro-Sul e pretende corresponder a pispirreta, do castelhano pizpireta.

As hidrângeas, flores, como todas, com os seus cultores, são por aí, “por ruelas e calçadas”, designadas por “hidranjas”. Não. São mais bonitas do que isso.

Sobre tireóide, diz o prof. Rebelo Gonçalves no seu Vocabulário da Língua Portuguesa: “Forma preferível a tiróide, que o uso, todavia, consagrou.”

“Suster” não é um caso de derivação, mas de proximidade fonética. Além de significar sustentar, amparar e alimentar e nutrir, adquiriu um sentido figurado de refrear e moderar que o faz ser aplicado como substituto de sustar no sentido que tem de “interromper, fazer parar”, mas cuja expressividade etimológica nos falha em comunicar. Não é assim com “sustar”, primeira forma de onde aquele deriva, e que é parente muito mais próximo do latim substare, de onde nos veio para o português. Substare – sustar.

Mais alguns exemplos (ainda) sem aval dos dicionários modernos: “albarroar” em vez de abalroar e “alcochoar” em vez de acolchoar.

E para fechar com chave de ouro, diga-se que o tão divulgado termo de anatomia “esternocleidomastoideu”, celebrizado pelo filme A Canção de Lisboa, de Cottinelli Telmo (1933), tem, na realidade, a grafia esternocleidomastóideo. Portanto, agradeço às pessoas que, a partir de agora, à semelhança do que diziam no filme em relação ao Vasquinho da Anatomia, interpretado por Vasco Santana – “Ele até sabia o que é o mastoideu!...” –, ao referirem-se-me, corrijam para: “Ele até sabia o que é o mastóideo!...”. Obrigado.

 

[1 N. E. – É muito discutível que dezasseis, dezassete e dezanove resultem da alteração fonética de dezesseis, dezessete e dezenove, supostamente mais antigas. Com efeito, põe-se a hipótese de o a das formas usadas em Portugal ter que ver com a conjunção latina ac, de valor aditivo como et. Ou seja, dezasseis < *dece ac sex; dezassete < *dece ac septe; dezanove < *dece ac nove (cf. José Joaquim Nunes, Compêndio de Gramática Histórica Portuguesa, Clássica Editora, 9.ª edição, 1989, pág. 210).  No galego o a também aparece, até na forma correspondente ao português dezoito: dezaseis, dezasete, dezaoito, dezanove (cf. Manuel Ferreiro, Gramática Histórica Galega, Edicións Laiovento, 1996, págs. 268/269 e Dicionário da Real Academia Galega); e se há esse elemento em comum com português, é bem provável que ele não seja inovação lusitana e remonte à Idade Média. Sobre a etimologia e variação de dezoito, ler "A pronúncia de dezoito: história e variação".]

Sobre o autor

Formado em Língua e Literatura Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Foi revisor no Jornal de Notícias e é atualmente copidesque no jornal Público. Responsável pela rubrica Palavra de Aurélio no P3 (sítio do jornal Público).