«Da contiguidade de obrigados» - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Da contiguidade de obrigados»
«Da contiguidade de obrigados»

Não poderá a expressão do agradecimento cair na excessiva deferência que só irrita? Mas será possível ser-se económico no uso de obrigado sem faltar à cortesia? O humorista português Ricardo Araújo Pereira propõe três soluções (imperfeitas) para não sobrecarregar a comunicação com os muitos obrigados que o encadeamento de certas ações quotidianas pode suscitar (texto publicado na revista Visão de 10/12/2015).

 

 

Já não é a primeira vez que acontece. Chegamos ao aeroporto. O motorista do táxi passa-me a máquina para eu marcar o código do multibanco e eu: obrigado. Depois ele recolhe a máquina e eu: obrigado. Logo a seguir ele entrega-me o talão e eu: obrigado. E depois dá-me a factura e eu: obrigado. No fim, deseja-me boa viagem e eu: obrigado. São cinco obrigados num período inferior a 30 segundos. O que deseja ser reconhecimento toma a aparência de zombaria. A educação transforma-se em falta de educação.

A pretexto de estarem mais preocupados com outras questões, os filósofos têm recusado reflectir sobre o problema da contiguidade de obrigados. É mais fácil andar pelas ruas de Atenas a tagarelar com Trasímaco acerca da definição de justiça do que dizer a uma pessoa o que há-de fazer quando uma concentração de agradecimentos subverte a ideia de gratidão. E depois admiram-se que sejam condenados a beber uma tacinha de cicuta.

Na minha opinião, quando confrontada com este tipo de problema, uma pessoa tem três hipóteses, nenhuma das quais completamente satisfatória:

1 – Agradecer apenas uma em cada duas acções. A alternância de agradecimentos com silêncio reduz a frequência dos obrigados, mas cria uma injustiça: certas acções passam sem retribuição. No caso em apreço, eu teria agradecido apenas a oferta da máquina, a entrega do talão e o desejo de boa viagem, e teria deixado sem agradecimento a recolha da máquina e a entrega da factura. Esta conduta produzirá no meu interlocutor uma dúvida: porque é que certas acções são merecedoras de agradecimento e outras não, sabendo que todas são praticadas com o mesmo denodo? Uma inquietação que, com base na minha experiência pessoal, o nosso interlocutor pode querer tirar a limpo com recurso à violência física.

2 – Esperar pelo fim e fazer apenas um agradecimento, talvez referindo que aquele obrigado, embora singular, se destina a agradecer uma pluralidade de acções. Um agradecimento global, digamos assim. No entanto, o facto de não agradecermos cada uma das acções individuais poderá gerar no outro a ideia de que somos malcriados. Isso, por sua vez, levará a que ele vá descurando progressivamente o empenho no serviço – o que, além do mais, fará com que o obrigado final pareça irónico. E conduzir à violência física.

3 – Evitar a repetição de obrigados substituindo sucessivamente a forma de agradecimento por um sinónimo. Obrigado, grato, agradecido, reconhecido, penhorado, e assim por diante. Devo advertir, porém, que este comportamento é um cobertor que tapa a cabeça do ridículo mas descobre os pés da parvoíce, e tem a capacidade de provocar nas outras pessoas uma irritação que, em geral, tem tendência a aplacar-se apenas de uma única forma. Refiro-me a violência física.

 

[Outros textos do autor aqui]

Fonte

Crónica publicada na revista Visão, em 10 de dezembro de 2015. O texto é disponibilizado com a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990, seguida pelo autor.

Sobre o autor

Licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica, começou a sua carreira no Jornal de Letras e escreve na revista Visão. Cronista e humorista, foi coator do programa televisivo Gato Fedorento. É, desde 2012, um dos elementos do programa Governo Sombra, na TVI24, e estreou em 2014 o programa diário na TVI, Melhor que Falecer. Na Rádio Comercial tem uma rubrica, Mixórdia de Temáticas. Publicou quatro livros de crónicas: Boca do Inferno (2007), Novas Crónicas da Boca do Inferno (2009 – pelo qual recebeu o Grande Prémio da Crónica, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Câmara Municipal de SintraA Chama Imensa (2010) e Mixórdia de Temática (2012), para além de Se não entenderes eu conto de novo, pá (Brasil, 2012) e A Doença, o Sofrimento e a Morte entram num bar (2016).