Até que o vós me doa - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Até que o vós me doa
Até que o vós me doa

«(...) Vós chamastes outros nomes aos vossos filhos e parastes de invectivar os amigos com o imperativo que pede emprestado ao conjuntivo. "Partamos  imediatamente, Alberto!", costumava exclamar-se. "Vamos embora, João Maria!", grita-se agora. Estais dispostos a reaver as conjugações antigas? Se sim, contactai-me. (...)»

 

 

Tenho saudades de uma pessoa. É a segunda pessoa do plural Em Lisboa, como sabeis, fora do púlpito praticamente ninguém a usa. Se calhar, tem um sabor antigo – e vós desejais ser modernos. Ou então soa a beatice – e vós ambicionais ser marotos. Seja por que razão for, a segunda pessoa do plural foi substituída por uma formulação meio esquisita. Em vez de «vós falais», dizeis «vocês falam». (Eu também digo, mas estou a conter-me para efeitos de comédia.) Ora, "falam" é a terceira pessoa do plural e, por isso, «vocês falam» constitui uma mixórdia linguística. A forma verbal que usamos para "eles", aplicamos a "vós". Na verdade, a "vocês" – que, ao que parece, resulta da contracção das palavras «vossas mercês», uma expressão pelo menos tão antiquada como "vós". Em Lisboa (e não só) dizemos, por isso, «vocês falam» e «eles falam». Aquele "falam" passa a servir para tudo. Em inglês, a mesma forma verbal também serve para várias pessoas: I speak, you speak, we speak, they speak. É uma falta de higiene e uma vergonha. Parece uma língua inventada por crianças.

Façamos um esforço para retomar o vós. E, de caminho, tentemos também recuperar esta forma de imperativo que parece usar o presente do conjuntivo. Nos livros, ainda se diz: «Brindemos à saúde do Vítor.» Na vida real, no entanto, toda a gente diz: «Vamos brindar à saúde do Martim» não só porque ninguém usa aquele imperativo, como porque já quase ninguém se chama Vítor. Os colegas das minhas filhas têm nomes completamente diferentes dos colegas que eu tinha na idade delas. Não há um Jorge, acabaram os Fernandos e os Paulos, escasseiam os Carlos e rareiam mais ainda os Vítores. Já no meu tempo, não havia Vicentes, e quase ninguém se chamava Tomás, Martim ou Lourenço. Vós chamastes outros nomes aos vossos filhos e parastes de invectivar os amigos com o imperativo que pede emprestado ao conjuntivo. «Partamos imediatamente, Alberto!», costumava exclamar-se. «Vamos embora, João Maria!», grita-se agora. Estais dispostos a reaver conjugações antigas? Se sim, contactai-me. Tentemos organizar um grupo de gente saudosa deste modo de falar, e decidida a devolver-lhe o uso. Já houve iniciativas piores, não diríeis?

Fonte

Crónica do autor publicada na revista portuguesa Visão de 8 de dezembro de 2016.

Sobre o autor

Licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica, começou a sua carreira no Jornal de Letras e escreve na revista Visão. Cronista e humorista, foi coator do programa televisivo Gato Fedorento. É, desde 2012, um dos elementos do programa Governo Sombra, na TVI24, e estreou em 2014 o programa diário na TVI, Melhor que Falecer. Na Rádio Comercial tem uma rubrica, Mixórdia de Temáticas. Publicou quatro livros de crónicas: Boca do Inferno (2007), Novas Crónicas da Boca do Inferno (2009 – pelo qual recebeu o Grande Prémio da Crónica, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Câmara Municipal de SintraA Chama Imensa (2010) e Mixórdia de Temática (2012), para além de Se não entenderes eu conto de novo, pá (Brasil, 2012) e A Doença, o Sofrimento e a Morte entram num bar (2016).