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As palavras podres
As palavras podres
O atroz fingimento da espontaneidade

« (...) O fingimento da espontaneidade é um espectáculo atroz. O fingimento da comunicação – um esforço fraudulento para apresentar uma série de respostas feitas como uma conversa aberta – é ainda mais indigno. (...)»

 

Não é só quando se vêem pessoas famosas a serem entrevistadas. É também nas conversas do dia-a-dia: nota-se quando as coisas não estão a ser ditas pela primeira vez.

Mesmo as pessoas que são pagas para repetir as mesmas histórias acabam por cansar-se. A princípio vivem das reacções de quem os ouve, divertindo-se com elas.

Mas chega a um ponto em que se aborrecem e as palavras ganham o artificialismo do sorriso forçado. As histórias, por muito bem contadas e aperfeiçoadas ao longo dos anos, começam a apodrecer.

Quando se conta uma coisa pela primeira vez a frescura vem do entusiasmo com que se procura apresentá-la por uma simples razão: a pessoa que está a contar também quer saber como é que a coisa (uma ideia, uma emoção, um acontecimento) vai ser contada.

Não sabe porque a pessoa que está a ouvi-la contribui muito para isso. A história muda conforme as reacções e palavras do interlocutor. Esta plasticidade só é interessante quando a história ainda está a ser inventada.

Em contrapartida, as pessoas habituadas a repetir as mesmas platitudes – e não são só políticos – não estão realmente a ouvir as perguntas que lhes fazemos porque as respostas já estão prontas muito antes de se fazer a primeira pergunta.

O fingimento da espontaneidade é um espectáculo atroz. O fingimento da comunicação – um esforço fraudulento para apresentar uma série de respostas feitas como uma conversa aberta – é ainda mais indigno.

O facto destes fingimentos abundarem não os torna menos tristes ou menos chocantes.

Fonte

in jornal Público de 20 de novembro de 2018. Manteve-se a grafia da norma seguida no original, anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

Sobre o autor

Nasceu em Lisboa em 1955. É doutorado em Filosofia Política, pela Universidade de Manchester, Inglaterra. Desde 2009 escreve diariamente no Público e, em 2013, passou a ser autor da Porto Editora, a quem confia a obra inteira. Publicou entre outros: A causa das coisas (1986), O amor é fodido (1994), A vida inteira (1995), Explicações de Português (2001). Mais aqui.