Alguma coisa foi - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa O nosso idioma Artigo
Alguma coisa foi
Alguma coisa foi

«(...) Está maldisposto? Tem a cabeça leve, o estômago em sobressalto? Alguma coisa foi. São estas as três palavras mágicas: alguma coisa foi. Não só são indesmentíveis, como dão direito a concordância: sim, alguma coisa foi.(...)»

 

Há uma explicação portuguesa para tudo que nunca erra. Seja qual for a circunstância e a gravidade do sucedido esta explicação aplica-se sempre com facilidade e proveito.

Está mal disposto? Tem a cabeça leve, o estômago em sobressalto? Alguma coisa foi. São estas as três palavras mágicas: alguma coisa foi. Não só são indesmentíveis, como dão direito a concordância: sim, alguma coisa foi.

Eis um exemplo dum problema resolvido pelo alguma coisa foi.

Mecânico, depois de uma hora de roda do motor do carro: “Não estou a ver porque é que ele desliga de repente...”

Cliente: “Ai, mas desliga!”

Mecânico: “Parece estar tudo em ordem, amigo.”

Cliente (como um relâmpago, conquistando o troféu dialéctico): “Alguma coisa foi...”

Mecânico (concedendo a vitória): “Sim, alguma coisa terá sido...”

Cliente (abusando da satisfação de ter vencido, esfregando a cara do adversário numa mão-cheia de desperdício): “Mas qual, amigo? Pois se eu vim cá precisamente para saber que porra de coisa é que foi — e o meu amigo não há maneira de me dizer!”

Na acepção mais metafísica o alguma coisa foi satisfaz-se a si mesmo. Porque é que havia de chover tanto no dia em que resolvi sair de sandálias? Alguma coisa foi — e não se fala mais nisso. Porque é que o céu é azul? Porque é que andas tão macambúzia? Porque é que o gato está a recusar estas gambas do Algarve? Porque é que estás a dar esta volta? Porque é que aquele menino está a chorar e a apontar para mim? Alguma coisa foi, alguma coisa terá sido. E não há-de ser nada.

Fonte

in jornal Público do dia 15 de novembro de 2018. Manteve-se a grafia da norma seguida no original, anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

Sobre o autor

Nasceu em Lisboa em 1955. É doutorado em Filosofia Política, pela Universidade de Manchester, Inglaterra. Desde 2009 escreve diariamente no Público e, em 2013, passou a ser autor da Porto Editora, a quem confia a obra inteira. Publicou entre outros: A causa das coisas (1986), O amor é fodido (1994), A vida inteira (1995), Explicações de Português (2001). Mais aqui.