Diversidades // O português em Moçambique
«Ainda», em vez de «ainda não»
Um curioso moçambicanismo
Um moçambicanismo que sempre achei engraçado: em vez de «ainda não», os moçambicanos dizem apenas «ainda».
É um uso que tem registo no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa:
«ainda [...] 12. [Moçambique,Informal] Por enquanto não; ainda não (ex.: Os boletins de voto já chegaram? -Ainda.).»
No blogue Aventura em Moçambique ("Expressões, 07/11/2013), também se recolhe esta maneira de empregar o advérbio:
«O patrão para a empregada: "Já fez a cama?"
Resposta: "Ainda."
Pois é, o "ainda não" não se usa... afinal não existe o "ainda sim", não é? Então, não vale a pena ter o árduo trabalho de dizerem duas palavras quando com apenas uma palavra dá para entender perfeitamente o que se quer dizer certo?»
Finalmente, mais um exemplo, a par de usos típicos de Moçambique, referidos em "O Português em Moçambique – moçambicanismos e características peculiares. Crónica breve de uma viagem muito recente"(Pórtico da Língua, 12/07/2018), relato de João Abel da Fonseca, que narra o seguinte encontro:
«[...] [P]arti com destino à Gorongosa, onde fiquei dois dias. No Departamento de Flora do Parque Nacional trabalha, diariamente, o Tonga Torcida, biólogo, poeta, dramaturgo, encenador, actor e bailarino, que ali chegara havia onze anos, com a idade de dezanove, como ajudante de limpeza e manutenção na piscina do empreendimento turístico. No ano passado esteve três meses na Universidade de Coimbra a frequentar um seminário orientado pelo Prof. Jorge Paiva. Com um olhar vibrante de paixão pelo que faz, insere na base de dados, já online, a classificação das cerca de 23 800 espécies identificadas no espaço do parque. Ao dizer-lhe que conhecia o mestre, exclamou: “Afinal?!”, ou seja, "não me diga?!" Pouco depois, ao perguntar-lhe se já concluíra o mestrado, respondeu-me: “Ainda”; para rematar com um: “Capaz”, quando um outro circunstante lhe disse que o levavam para a América. Aquele "ainda" era um "não" e este "capaz" era mesmo um "nem pensar, daqui não saio, daqui ninguém me tira".
Apontamento que o autor publicou no seu mural no Facebook em 13/11/2024 e que aqui se divulga com algumas adaptações.
