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A história de croissant e brioche

E outras viennoiseries em Portugal

Tudo começou em Viena, daí viennoiseries, quando a cidade foi cercada pelos Turcos otomanos no séc. XVII.

Os austríacos conseguem expulsar os turcos e, então, para celebrar esta vitória, os padeiros de Viena criaram uma espécie de pão doce com a forma de um crescente, o símbolo islâmico da bandeira turca1. Em suma, eles devoram o inimigo...

Um século mais tarde, Marie-Antoinette (Maria Antonieta), uma princesa austríaca, chega a França para se casar com o futuro rei Louis XVI (Luís XVI) e traz a receita do croissant, que os padeiros franceses transformam na viennoiserie que todos hoje conhecemos.

O termo francês viennoiseries, que significa literalmente "coisas de Viena", refere-se, portanto, a uma categoria de pastelaria e panificação de luxo. São produtos que combinam as técnicas do pão tradicional com ingredientes ricos de confeitaria (como manteiga, ovos, leite e açúcar). 

Exemplos mais conhecidos:

– croissant: a estrela das viennoiseries, feito com massa folhada em formato de meia-lua.

– pain au chocolat: massa folhada com recheio de chocolate.

– pain aux raisins: massa enrolada em espiral com creme e passas. 

– brioche: massa leve e fofa, rica em ovos e manteiga.

Em Portugal, pain au chocolat e pain aux raisins têm curso como toque de distinção nos produtos à venda em pastelarias e confeitarias, e são relativamente fáceis de decifrar, pois, à letra, são «pão de chocolate» e «pão com uvas» (ou «de uvas»), respetivamente. Procurando usos mais vernáculos, o dicionário francês-português da Infopédia apresenta o híbrido «croissant de chocolate» e, para o bolo que incorpora uvas, caracol.

Quanto a croissant, nem a tradução por crescente nem o aportuguesamentos deste galicismo como cruassãcroassã e croissã2 tiveram sucesso. É, portanto, croissant que se mantém na escrita, muito embora a lexicografia mais antiga não a registe e a mais recente pouco ou nada diga sobre a datação das primeiras atestações da palavra em português. 

Já brioche, vocábulo associado a uma frase que a malograda rainha austro-francesa nunca terá proferido3, adapta-se sem alteração gráfica como brioche. Em francês, atesta-se brioche desde 1404 (Dicionário Hoauiss), como denominação de um «bolo amassado com a brie, espécie de rolo», sendo brie um derivado do verbo brier, forma normanda de broyer, «triturar, trilhar», relacionado com brèche, que encerra o radical do germânico brekan e está na origem do português brecha (ibidem). 

Brioche não estará mais bem documentado nos dicionários do que croissant, mas o Dicionário Houaiss indica que brioche tem entrada dicionarística desde meados do século XX, na 10.ª edição (1949-1958) do dicionário de Morais. Contudo, é possível que, em português, a palavra já estivesse bastante presente, como confirma a sua ocorrència num texto literário dos anos 1930:

(1) «Quando entrei, a tricana estava assentada na sala grande, na mesma mesa, perto da janela, onde costumava tomar tôdas as tardes a sua brioche e a sua cerveja uma senhora que teve uma situação brilhante na sociedade portuguesa» (Joaquim Paço d'Arcos, Diário dum Emigrante, 1936, in Corpus do Português)

É também curioso que o género feminino que brioche tem em francês se conserva na frase acima citada. Hoje, porém, em português, a palavra tem uso no género masculino, talvez porque se tem em mente o seu hiperónimo, bolo, do género masculino.

1 Ver, em francês, vídeo em https://www.facebook.com/reel/1773564750689378 e ler o artigo "Pourquoi les croissants ressemblent-ils à un croissant de lune ?" (https://fr.finance.yahoo.com/.../pourquoi-les-croissants...).

2 Virando a atenção para o Brasil, refira-se que, no Aurélio XXI, se consigna croissant que remete para o portuguesamento croassão, o qual não parece ter tido uso ou registo em Portugal.

Consulte-se "Que comam brioche", na Wikipédia (consultada em 22/06/2026). 


Fonte

Texto expandido a partir de outro publicado pelo autor no Facebook (14/06/2026).

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa