Controvérsias // Diversidade linguística na CPLP
O idioma que não soube morrer
O ano em que os Portugueses desapareceram
«No início, houve quem dissesse que a língua também tinha morrido.»
Em 2038, todos os portugueses desapareceram.
Até hoje ninguém sabe por quê. Não houve guerra, nem vírus identificável, nem desastre ambiental, nem inimigo recalcado ou extraterrestre que se possa apontar com segurança retrospectiva. Num intervalo de dois dias, o país inteiro esvaziou-se como uma casa cuja luz foi apagada de dentro... Na diáspora, puf! Interruptor desligado.
Restaram arquivos, gravações, dicionários, gramáticas, obras literárias e uma quantidade desconcertante de gente a tentar entender, depois, como se explica um silêncio.
Ah, falo daqui, de 2056, embora a data já não queira dizer muito desde que a cronologia lusófona perdeu o seu eixo atlântico europeu.
No início, houve quem dissesse que a língua também tinha morrido. Era uma ideia estranhamente reconfortante para alguns: sem Portugal, não haveria português legítimo. Mas a língua (portuguesa) continuou a circular com uma indiferença quase ofensiva. Nos mercados de Luanda, nos corredores administrativos de Maputo, nos fóruns de São Paulo, continuava-se a falar português com uma naturalidade que não pedia autorização a nenhum cadáver geográfico nem a movimento jacobínico.
Teimosa, a discussão antiga reapareceu com nova febre: "os brasileiros não falam português, os angolanos e os moçambicanos também não; viva o independentismo!".
Em 2039, um comitê internacional tentou rebatizar tudo como "língua atlântica comum", mas a proposta morreu por excesso de burocracia e falta de uso real. A língua, como sempre, nem aguardou despacho, navegando solta pelo Atlântico.
Os arquivos mostravam algo embaraçoso para os puristas póstumos: o português já não era uma fotografia de 1500, nem de 1800, nem de 1900. Era uma sequência de usos, variações, padrões que se reconheciam mutuamente... apesar das diferenças. Uma unidade na diversidade.
Um brasileiro do Recife lia Camões sem tradução; um angolano entendia um noticiário (gravado) de Lisboa com quase nenhum ajuste mental; um timorense conversava fluidamente com um cabo-verdiano durante duas horas sobre as notícias do Brasil e de Moçambique.
E ninguém precisava tirar a licença de proficiência em Português para isso acontecer.
A língua não soube morrer.
Houve, claro, tentativas de ressurreição simbólica. Um grupo em Genebra propôs reconstruir o "português europeu original" a partir de corpora do século XX, como quem reconstitui uma espécie extinta por DNA textual. Mas os resultados eram estranhamente estéreis: soavam como citações sem boca.
O que permaneceu (e isso surpreendeu até os mais céticos) foi a evidência banal de que a língua sempre tinha sido maior do que o país que lhe dera o nome. Nos países lusófonos, continuava-se a publicar literatura lusitana, a discutir gramática luso-brasileira, a discordar ferozmente sobre os horizontes do idioma em África, mas tudo em Português — ainda que alguns insistissem em negá-lo por razões mais políticas do que linguísticas.
E assim, em 2056, quando alguém ainda repete que "nós não falamos português", a frase já não provoca debate: provoca apenas uma espécie de arqueologia mental, como se alguém dissesse que o latim não era falado pelos romanos ou que o oceano Atlântico não molha continentes diferentes porque não gosta de simetria.
A língua portuguesa, entretanto, continua. Sem pedir autorização aos futurologistas, aos separatistas, aos ressentidos, aos decolonialistas e aos mortos de 2038 — vivos em cada fonema, morfema, palavra, frase, sentido.
(E, se você não entendeu o texto, troque na primeira linha a palavra portugueses por brasileiros ou por angolanos ou por moçambicanos...)
Texto publicado no Facebook em 19/06/2026 e também aqui partilhado com a devida vénia.
