O gerundismo e o faxineiro: quem pode legislar sobre a língua - Controvérsias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O gerundismo e o faxineiro: quem pode legislar sobre a língua

Parece piada, mas o assunto é sério. Há dois meses, o governador José Roberto Arruda (DF) fez publicar no Diário Oficial do Distrito Federal decreto em quem "demite" o gerúndio dos órgãos do governo da unidade federativa que administra. Especifica, no artigo 2.º do decreto número 28 314 de 28 de setembro de 2007, que «fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de ineficiência».

Agora chegou a vez de um deputado federal por SP, o conhecido cantor Frank Aguiar, fazer sua incursão no terreno da língua portuguesa. Apresenta projeto em que propõe que, na Classificação Brasileira de Ocupações, seja substituído o termo faxineiro por profissional da limpeza, alegando ter o primeiro adquirido sentido pejorativo.

Muito bem. Em ambas as situações, vemos políticos legislarem sobre a língua, tentando, dessa maneira, interferir no modo como as pessoas se expressam.

No primeiro caso, o governador pretendia abolir das repartições do governo a prática do gerundismo, que é diferente do gerúndio em si. O que os estudiosos vêm chamando de gerundismo é o emprego abusivo do gerúndio nas situações em que não caberia a idéia de continuidade, própria dessa forma nominal.

Na tentativa de explicar esse uso que se vem disseminando entre falantes escolarizados, estudiosos aventaram hipóteses como a de que esse tal gerundismo seja uma forma de educadamente expressar descompromisso com a questão em pauta. O funcionário que diz «vamos estar resolvendo o seu problema» ou «as mercadorias vão estar chegando», segundo essa interpretação, estaria adiando a resolução definitiva do problema ou omitindo o fato de não saber quando, de fato, as tais mercadorias vão chegar.

Na verdade, o que parece indiscutível é que essa construção sintática constitui uma fórmula de polidez. Existe coisa mais irritante do que um funcionário nos dizer, da maneira mais educada possível, que não tem a menor idéia de como ou quando vai resolver o nosso problema? O que irrita, mais que o gerundismo em si, é a forma polida com que se livram de nós, que nos obriga a aceitar a chateação com igual polidez — para o bem da boa educação.

É bem possível que, para além das traduções literais do inglês que teriam feito surgir essa construção em português, haja mesmo uma acomodação ao comportamento negligente de quem gentilmente nos informa de que o sistema caiu e, portanto, nossa reclamação não poderá estar sendo registrada. É com muita amabilidade que nos perguntam se poderemos estar ligando novamente para o serviço de atendimento...

Como vimos, o governador Arruda entendeu abolir de vez o uso dessa fórmula, alegando ser ela uma desculpa para a ineficiência. Seria interessante procurar saber os resultados da medida, que, naturalmente, deve ter soado como galhofa.

Agora o deputado, na linha da já enterrada cartilha do "politicamente correto" de Nilmário Miranda, quer banir os nossos faxineiros da Classificação Brasileira de Ocupação. Diferentemente do que se possa imaginar num primeiro momento, essa classificação engloba vários sinônimos para cada ocupação. Se a pessoa se denominar servente de limpeza ou auxiliar de limpeza, terá o mesmo código que aqueles intitulados faxineiros. Em outras palavras, a proposta de fazer uma faxina lingüística parece de pouca utilidade prática.

Examinemos, então, suas possíveis motivações. O sentido pejorativo que pode haver em fazer a faxina é o mesmo que ocorre em fazer uma limpeza, ambas as expressões usadas, figurativamente, no sentido de roubar. Ocorre que ninguém associa faxineiro ou profissional da limpeza a ladrão, donde não estar aí o tal sentido pejorativo a que se refere o deputado. Se assim fosse, outros profissionais teriam mais a reclamar. Coveiro, por exemplo, no sentido figurado, é a pessoa que estimula o fim de alguma coisa («Fulano foi um dos coveiros da democracia no continente») ou mesmo uma pessoa cruel. Açougueiro é usado pejorativamente como médico cirurgião ou dentista inábil — isso para não falar do barbeiro, que, no Brasil, é sinônimo de motorista inábil, sentido já expandido para outras inabilidades («Fulano é um eletricista barbeiro»).

Pior que essas foi talvez a situação do português Belchior Nunes Carrasco, em tempos talvez mais bicudos da vida em sociedade, cujo sobrenome ficou indissociavelmente ligado à sua atividade profissional. Hoje carrasco é sinônimo de algoz. Num movimento inverso a esse, algumas profissões no passado, como lavrador e monteiro, tornaram-se sobrenomes.

Esses movimentos mostram quanto a atividade profissional tende a ligar-se à personalidade dos indivíduos e nos dias atuais isso parece cada vez mais presente. Quantas vezes as pessoas se referem às outras pela profissão que exercem? É comum apresentar os amigos uns aos outros logo dizendo aquilo que fazem profissionalmente. Alguns, mais entusiasmados, já vão logo contando as atividades profissionais dos filhos e cônjuges. Geralmente um é médico, o outro é publicitário, arquiteto, dentista (ou, quem sabe, odontólogo!) etc. O hábito é comum entre aqueles chamados profissionais liberais, para quem o nome da profissão soa como uma espécie de título.

É verdade também que nem todos têm essa relação com a atividade que exercem — e talvez esteja aí a questão com a qual se preocupa o deputado. Algumas pessoas preferem apresentar-se como funcionárias de determinado estabelecimento a identificarem-se pela atividade em si — o que depende do grau de prestígio de que goza a empresa em que trabalham. A equação é simples: há atividades socialmente valorizadas e atividades socialmente desprestigiadas.

Não se pode dizer que a atividade do faxineiro ou do «profissional de limpeza» seja prestigiada. Apesar de sua inegável importância — imagine o leitor o que aconteceria se todos os faxineiros da cidade decidissem cruzar os braços por um dia —, falta-lhe o status, o "glamour".

É possível que a expressão profissional da limpeza, por parecer mais abrangente que faxineiro, acrescente à atividade uma condição superior. Será talvez o mesmo raciocínio de quem prefere coletor de lixo a lixeiro.

Em todo caso, o que parece incomodar é uma situação, não propriamente um nome. Talvez a valorização da profissão com salários mais atrativos seja uma bandeira mais adequada a quem se preocupa com os problemas de uma categoria profissional. A empregada doméstica preferirá ser gentilmente chamada de secretária ou ter sua remuneração multiplicada? Legislar sobre os nomes, aparentemente, é mais fácil que transformar a realidade.

Fonte

Folha Online, 13 de Dezembro de 2007

Sobre a autora

Thaís Nicoleti de Camargo é professora de português. É consultora de língua portuguesa no jornal Folha de S. Paulo e escreve sobre este tema na coluna Vale a Pena Saber e na Redação do Leitor, o que deu origem ao livro Redação Linha a Linha.