Antologia // Portugal A evolução do português Não há dúvida que daqueles tempos para cá (1) houve na língua portuguesa notável variação, por se seguir glorioso reinado ou – por melhor dizer – se fundar o novo império (como diz o Poeta) do felicíssimo rei D. Manuel; cuja corte, além de ser a de mais polícia de nossos reis, foi frequentadíssima de todas as nações; das quais, com a mistura dos idiomas, e com os polidos sujeitos que dali por diante se começaram a criar, saiu a nossa língua mais elegante e suave. Caso que com a sua toscana ac... Frei Manuel do Sepulcro · 21 de maio de 1998 · 6K
Antologia // Portugal A francesia Ao pé de cada canto, hoje, sem pejoSe tratam de Monsieur os Portugueses.Isto, senhor, é moda, e como é moda,A quisemos seguir, e sobretudoMostrar ao mundo que francês sabemos.— De tanto peso pois (lhe volve o Lara)É, padre jubilado, porventuraO saber o francês, que disso alardeFazer quisessem Vossas Reverências?Por acaso, sem esse sacramento,Não podiam salvar-se, e serem sábios?Pois aqui, em segredo, lhe descubroQue o francês, p... António Dinis da Cruz e Silva · 14 de maio de 1998 · 5K
Antologia // Portugal Os malefícios do til Esta obra é engenhosa (1). Pretender a correcção da língua portuguesa foi um assunto de que ouvi sempre rir em Portugal. Se nessa matéria se não deve seguir tudo o que este autor escreveu, muitas regras se podiam tirar da sua invenção, para detestar algumas grosserias, que com pouco gosto conservamos no idioma português, as quais com pouco trabalho, e quase sem diferença, se podiam limar. Quanto aos vocábulos que acabam em ão como torrão, trovão, ladrão, sou bem contra eles, por... Francisco Xavier de Oliveira · 7 de maio de 1998 · 3K
Antologia // Brasil A seita gramatical O Brasil não é somente o país dos políticos, é também a terra dos gramáticos, quero dizer, dos que têm a obsessão dos vocábulos e das regras de sintaxe. Depois de decorridos quatro séculos, e com a interposição do Atlântico, teimamos, contra todas as leis da vida, em conservar intacto o vocabulário português do século dezasseis, e com o vocabulário a prosódia e a sintaxe dos portugueses de aquele tempo... ...Nós, os brasileiros, insistimos em conservar parada a mesma língua que n... Mário de Alencar · 29 de abril de 1998 · 5K
Antologia // Portugal Vozes de comando Sendo a linguagem pintura do pensamento, e, como tal, objecto de arte e de gosto, não podia deixar de participar do espírito, do génio e do pensar do povo que a fala; assim como este mesmo, em todas as referidas cousas, depende inquestionavelmente da natureza da região que habita, do conspecto do solo e das influências de um astro mais ou menos benigno. (...) Francisco Evaristo Leoni · 24 de abril de 1998 · 6K
Antologia // Brasil Estudo da Língua Pátria Não te contentes (…) com as noções elementares deste compêndio (1); sirvam-te somente de guia para leres os bons autores, que desde 1500 fixaram e aperfeiçoaram a língua, e começaram a escrever tão cultamente, ao menos os seus dramas, como os Italianos, que primeiro o fizeram na Europa moderna, antes que os Franceses, Ingleses e outros tivessem poetas correctos e elegantes, nem historiadores e oradores dignos de se lerem, como os nossos Castanheda, Barros, Couto, António Pinto Pereira, Lucena... António de Morais Silva · 17 de abril de 1998 · 4K
Antologia // Portugal Dicções antigas Em tempo de el-rei D. Afonso Henriques capapelle era nome de uma certa vestidura; e não somente de tanto tempo, mas também antes de nós um pouco, nossos pais tinham algumas palavras que já não são agora ouvidas, como compengar, que queria dizer comer o pão com a outra vianda; e neminchalda, o qual tanto valia como agora nemigalha (1), segundo se declarou poucos dias há uma velha que por isto foi preguntada, dizendo ela esta palavra. E, era a velha a este tem... Fernão de Oliveira · 9 de abril de 1998 · 3K
Antologia // Portugal A Língua Portuguesa Ó Portuguesa Língua, quando um diaFloresceste nos rústicos cantares,Quem te diria que, por sobre os mares,Com tua alma o teu génio cresceria!Soou na Terra a tua melodiaE pelo orbe criou nações e lares;Com teu ritmo de impulsos e vagaresFoste laço de povos e harmonia.Mas, ó Língua sagrada e Mãe gentil,Tua glória maior de peregrinaE missionária donde génio flui,Tu a criaste em terra do Brasil,Depois que o padre António Vieira ensinaO seu aluno mais preclaro — Rui! Afonso Lopes Vieira · 3 de abril de 1998 · 4K
Antologia // Angola À volta da desbunda e das oenegês Surpreendo-me discorrendo sobre alguns mitos emergentes na sociedade angolana, sem rumo certo e em desfrute de lentos vagares, mas logo me deixo enlear por coisas de somenos, pequenas dúvidas, questões teóricas. Será que esses mitos, sobre os quais me debruço, existem mesmo antes de serem nomeados, ou apenas passaram a existir por terem sido nomeados? Arnaldo Santos · 26 de março de 1998 · 5K
Antologia // Portugal Portanto Hoje toda a gente diz portanto. Toda a gente é talvez um exagero, uma falta de rigor, mas toda a gente já reparou que muita gente diz portanto, a torto e a direito. Sobretudo gente culta, ou tida como culta, vá-se lá saber em muitos casos por que bulas, mais nas cidades do que no campo – políticos, militares, advogados, médicos, engenheiros, professores, estudantes, jornalistas, escritores, todos dizem portanto, dando a ideia de que se trata de palavra indispensável, ou p... Afonso Praça · 12 de março de 1998 · 7K