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A língua portuguesa no Brasil

A maior surpresa de quem estuda a história do Brasil deve ser como o pequeno povo português, distraído aliás por interesses maiores nas Índias, conseguiu contra Franceses, Flamengos, Ingleses e Espanhóis, manter por três séculos a continuidade da posse e a unidade territorial de um domínio estendido por 39 graus de latitude e outros tantos de longitude, grande de oito milhões de quilómetros quadrados e exposto em oito mil quilómetros de costas às invasões marítimas.

A Espanha não o soube e não o pôde, com o império colonial quebrado e repartido na dúzia e meia de nações que dele resultaram. Nem o caso dos Estados Unidos, hoje tão extensos como nós, é no nosso comparável: cresceram por justaposição, de compra e de conquista, as treze colónias inglesas da Independência formavam menos de um terço de todo o território actual...

Nós fomos assim, desde 1500, achados, possuídos, principalmente conservados como somos, pelos Portugueses. Se o maior mérito de José Bonifácio e Pedro I, nos dias da Independência, foi de nos manter coesos; se o de Caxias foi de nos combater, contra nós mesmos, nas tentativas de desagregação, não faltemos com a justiça e o louvor àqueles que por três séculos antes nos defenderam das ambições forasteiras soltas no mundo, e que nos deram desde os primeiros tempos coloniais um espírito nacional, com o qual os lográmos ajudar e pudemos enfim sobreviver.

Outra surpresa, quase igual, é a nossa ingratidão, por vezes, a estes e outros benefícios recebidos, tanto mais grave, quanto ela é não raro ilógica e até ridícula. Quando foi da Independência, a reacção nativista se exerceu renegando não só a verdade histórica, como a própria voz do sangue, que assim traíamos. Éramos filhos de portugueses: tínhamos pois uma ilustre prosápia, de glorioso povo antigo que, depois de bater os infiéis, repelidos para África, onde continuaram a ser rechaçados, se lançara ao mar tenebroso, contornara o continente negro, tocara a América, alcançara as Índias, atingira o Japão, devastara a Oceânia, e não havendo mais mundo, porque se «houvera lá chegara», tirou-o em prova, dando a volta ao mesmo mundo.

Pois bem, quando a vaidade dos civilizados, ricos e pobres pretende procurar parentes entre os Cruzados, nós que os temos, de facto, entre os da Terra Santa e os da Terra inteira, nós renegávamos os pais que tínhamos, e, não ousando nos gloriar dos negros africanos, invocávamos os selvagens brasileiros. Portugueses é que não queríamos ser. É simbólico aquele caso, entre tantíssimos, de delírio nativista, de um Francisco Gomes Brandão, que passou a ser Francisco Gé Acaiaba de Montezuma, até que a Coroa lhe corrigiu a paternidade, ingratamente repudiada, dando-lhe fictícia nobreza, no título de Visconde de Jequitinhona, gratificação merecida dos talentos e serviços de patriota e estadista.

Não sabíamos, e talvez ainda não o sabemos todos, que este selvagem brasileiro é dos povos ínfimos da terra, na escala mais baixa da civilização, que tem estudado a Sociologia, mais atrasados e bárbaros que os feitos africanos a quem demos maior desdém e tamanha ingratidão.

Mais ainda. Estes portugueses fizeram uma formosa língua, irmã das línguas romances, derivadas do latim, trabalhada e polida pelo maior Épico dos tempos modernos, por uma legião de prosadores que se contrastam com os mais considerados da Europa inteira. Com efeito, uma autoridade, porque é de estrangeiro, o sr. Edgardo Prestage, da Universidade de Manchester, onde ensina a literatura portuguesa, o afirma: «Não há país, por mais rico que seja o seu pecúlio literário, que não se ufanasse de contar entre os seus filhos cronistas como Fernão Lopes, historiadores como João de Barros e Diogo do Couto, raconteurs como Fernão Mendes Pinto, biógrafos como Frei Luís de Sousa, escritores asiáticos como o padre Manoel Bernardes, moralistas como Frei Heitor Pinto, oradores sagrados como o padre António Vieira, homens inspirados de Deus como Frei Tomé de Jesus, que, no cativeiro de Marrocos, compôs a obra de devoção inigualável, Trabalhos de Jesus. E cita-os todos, para reservar o maior louvor a esse incomparável D. Francisco Manoel do Melo.

Pois bem: deu-nos Portugal esta casta e sonora, forte e sólida língua portuguesa, para a honrarmos e acrescentarmos, na divulgação do grande povo que havemos de ser, e aparecem por aí umas vozes, graças a Deus discordantes, felizmente sem alcance e sem eco, a reclamar, em nome do nativismo, os abusos de prosódia, os erros de sintaxe, os solecismos intencionais, os desleixos de estilo, porque com isso, dizem eles, ou o pensam consigo, faremos uma língua brasileira, tristíssimo dialecto começado assim no erro, não do povo, o que seria de se escusar, mas de letrados, o que apenas é de sorrir. A língua brasileira seria como a parentela brasileira, que alcançou o nosso desvario.

Felizmente, assim como a gente não escolhe os seus parentes e, mercê de Deus, os nossos foram ilustres, também não escolhe a linguagem que balbucia no berço, e bem-aventurados os brasileiros, porque essa é a ilustre língua portuguesa.

É estultícia cuidar em fazer uma língua, sequer um dialecto, obra difícil e longa de um povo inteiro, em muitos séculos, e não decisão política de alguns patriotas descontentes.

Depois, para os consolar, basta que tenham paciência e o tempo lhes dará insensivelmente a variação que desejam, tanto em Portugal como no Brasil, a que a vida impõe, a vida de que a linguagem é a expressão pensada e articulada. Não há muito, um sábio mandado pela a Academia Francesa ao Canadá, para assistir a festas seculares de lá voltava maravilhado por ter ouvido falar – os ouvidos não queriam crer – o francês de grande século, língua de Pascal e de Racine, que já não tem curso em França, e conservara a fidelidade da antiga colónia. No Maranhão, como na Bahia, estão conservados vocábulos e locuções, ainda em uso no Minho ou em Trás-os-Montes, e que Lisboa e o Rio de Janeiro desaprenderam.

O tempo, que faz isso, fará felizmente cada vez menos isso, graças a essa incessante comunicação humana que é a vantagem do nosso tempo. Outrora cantinho de terra, numa Suíça, havia lugar para três línguas e trinta dialectos, insoados nos vilarejos, ninhos alpestres de gente, no regaço dos valados e povoações lacustres, os quais, próximos pela distância, idênticos de raça, entretanto se não entendiam. Hoje, em imensos países, como os Estados Unidos ou o Brasil, de um recanto longínquo ao outro extremo do território, a mesma língua é falada e compreendida por todos os seus milhões de habitantes. Pequenas variações prosódicas, que o clima e o meio social solicitam, vocabulário e expressões pitorescas, que a vida regional diferente inventa e propaga, disseminam-se por todo o país na difusão pronta da imprensa, do correio, do telégrafo, e das gentes que incessantemente se comunicam.

A língua varia assim insensivelmente, mas continuamente, e só a disciplina da educação e da instrução da linguagem lhe põe empeços aos desmandos e degeneração, para a glória de sua mantença e perfeição.

Não faz o lavrador uma árvore; mas, plantada a tempo, adubado e regado o terrão, protegida por tutor quando ainda vergôntea, podada mais tarde de ladrões, esgalhos e demasias de folhagem, dará bela árvore, então sombria, florida e frutuosa.

 

Fonte
De uma conferência pedagógica, da série promovida pelos inspectores escolares do Rio de Janeiro, em 1919, publicada na revista "A Escola Primária", Rio, Junho a Setembro de 1919, in "Paladinos da Linguagem", vol. II.

Sobre o autor

Afrânio Peixoto (Lençóis, 1876 — Rio de Janeiro, 1947), foi um médico, político, professor, crítico literário, ensaísta, romancista e historiador brasileiro. Publicou entre outros: Rosa Mística (1900), História da Literatura brasileira (1930), Amor sagrado e amor profano (1942), Breviário da Bahia (1945), Livro de horas (1947).