Nem se vai dar por isso - Acordo Ortográfico - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa Acordo Ortográfico Artigo
Nem se vai dar por isso
Nem se vai dar por isso

texto descritivo da imagem

 

Rui Tavares volta a pronunciar-se a favor do Acordo Ortográfico, já  ratificado em Portugal, e, posteriormente, promulgado pelo presidente Aníbal Cavaco Silva. Neste artigo, saído no "Público" do dia 23 de Julho de 2008,  o autor dicorda de dois tipos de profecias anti-Acordo:«que ninguém lhe obedecerá ou que a sua aplicação será uma calamidade.»

 

Agora que o Acordo Ortográfico está ratificado [e promulgado pelo Presidente português, Anibal Cavaco Silva], os seus adversários fazem dois tipos de profecias: que ninguém lhe obedecerá ou que a sua aplicação será uma calamidade. Não acredito em nenhuma das duas hipóteses e vou explicar porquê.

Quem tem de obedecer ao acordo em primeiro lugar são os próprios Estados que o assinaram. Eu escrevo e continuarei a escrever da forma como quiser sem punição do Estado (na verdade, muitas vezes são os poderes privados que interferem: eu escrevo sempre "estado" com minúscula, e tanto este jornal como a minha editora costumam alterar para maiúscula). Mas reconheço legitimidade ao Estado [maiúscula introduzida pelo editor para confirmar declaração anterior] para escolher uma ortografia para os seus actos escritos, nomeadamente para que as leis estejam escritas de forma homogénea. O primeiro objecto do acordo será, nesse sentido, o Diário da República. O resto da sociedade só segue se quiser.

Dito isto, é natural que o acordo vá progressivamente entrando nos hábitos de escrita dos portugueses e outros lusófonos, e isto por uma razão que neste momento talvez provoque algum escândalo. Ele, de facto, simplifica-nos a vida.

No Brasil irão ocorrer duas mudanças fundamentais. A primeira é cair o trema em palavras como "seqüência" ou "lingüiça". É até compreensível a resistência a esta mudança. Ela facilita no momento da escrita, mas pode dificultar a leitura. Algumas pessoas, dizem os opositores, podem passar a dizer "sekencia", como se aquele "u" não fosse para pronunciar. Mas nós portugueses, que não usamos o trema, sabemos que esta confusão é rara: que me lembre, só na palavra "sequestro" há quem leia "secuestro" ou "sekestro". E não só esta confusão é rara como não vem daí mal ao mundo, no sentido em que ninguém deixa de se compreender por ela.

A segunda é cair o acento que os brasileiros usam em "idéia" ou "assembléia". Li uma entrevista de um poeta brasileiro (à revista Língua Portuguesa, que se edita naquele país) protestando contra o que neste caso seria uma "vitória" da pronúncia portuguesa. Segundo ele, os portugueses pronunciariam "idêia" e "assemblêia" com o "e" fechado, e a queda do acento consagraria isto, que nós sabemos que é um disparate. Os portugueses pronunciam o "e" aberto em ambas as palavras.
Estas misturadas dos oponentes do lado de lá do Atlântico ajudam-nos a entender melhor as misturadas que se fazem do lado de cá.

Em Portugal, a grande mudança é a queda das consoantes mudas. Já se falou muito sobre as suas desvantagens. Vejamos agora o outro lado da moeda. Frequentemente vejo escrito "contracto" (no sentido de "acordo" e não de "contraído", claro) com um "c" a mais. E não é raro encontrar a forma "conductor" ou até "traducção". Isso acontece porque, como as consoantes mudas não se lêem, acabamos por inventá-las no momento da escrita em palavras onde elas "poderiam" estar.
A partir de agora passa a haver uma regra simples. No momento de escrever, pense-se: eu pronuncio aquele "c"? Se sim, escrevo. Caso contrário, não escrevo (ou, em alternativa: se desejo continuar a escrevê-lo, devo pronunciá-lo). Esta regra vai facilitar a vida a muita gente no momento da escrita. E ela é, por si só, a grande mudança que o cidadão comum vai ter de fazer. Quando começar a ser utilizada, pouca gente quererá voltar atrás.

Sempre o disse: esta reforma ortográfica é relativamente modesta (quando comparada, por exemplo, com a que a língua alemã fez recentemente). Se estamos numa de palpites, deixo o meu: daqui a cinco anos ninguém se vai lembrar das razões de tanta resistência.

Fonte

In Público, 23 de Julho de 2008