Letras que caem, duplas grafias que ficam - Acordo Ortográfico - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Letras que caem, duplas grafias que ficam

O Acordo Ortográfico prevê alterações em cerca de 1,6 por cento das palavras que constituem o léxico da chamada variante luso-africana do português (que engloba Timor e Macau), ao passo que, na variante brasileira, apenas 0,5 por cento das palavras irão passar a ser escritas doutra maneira. O documento consagra ainda uma dupla grafia para algumas palavras que continuarão a escrever-se diversamente em Portugal e no Brasil. Seguem-se algumas das propostas de alteração mais relevantes para o português de Portugal.

Alfabeto ganha três letras

As letras "k", "w" e "y" são oficialmente acolhidas no alfabeto português. É mais uma oficialização do que uma mudança, já que a prática há muito consagrou o seu uso, designamente em vocábulos derivados de nomes próprios estrangeiros. Os dicionários registam, por exemplo, as palavras "kafkiano", "wagneriano", ou "yoga", esta última como alternativa legítima a "ioga".

Maiúsculas

Os meses do ano passam a grafar-se sem maiúscula inicial, tal como acontece com os pontos cardeais, salvo quando correspondam a uma região. A opção pela maiúscula torna-se ainda facultativa em vários casos, incluindo títulos de obras – a primeira palavra deve ter sempre maíuscula inicial, mas as restantes podem não a ter –, tratamentos de cortesia, como Senhor Doutor, ou nomes de disciplinas do saber (Português, Matemática). A generalidade dos topónimos mantém a maiúscula, mas esta torna-se facultiva em nomes de ruas, praças, etc. Vai ser possível, portanto, escrever-se avenida dos aliados ou rua augusta.

Consoantes mudas

Quando um dos termos de uma sequência consonântica é proferido na pronúncia culta da língua, como em "pacto" ou ficção", fica tudo como está. Se é invariavelmente mudo, como acontece nas palavras "acto", "colecção" ou "director", o "c" cai sempre. Pela mesma lógica, cai o "p" em "Egipto" ou "peremptório", sendo que neste último caso o "m" dá lugar a um "n": perentório.

Acentos

A conjugação na terceira pessoa do plural do presente do indicativo de verbos como ter, vir e ver — têm, vêm e vêem — perde o acento circunflexo. Passa a escrever-se, por exemplo, "reveem". Já em "dêmos" (presente do conjuntivo), continua a aceitar-se o acento, a título facultativo, para evitar a homografia com "demos" (pretérito perfeito do indicativo). A excepção é a forma verbal "pôde", que preserva o acento.

Também são banidos os acentos agudos e circunflexos que ainda se mantinham em algumas palavras graves, como em "pára" ou "pêlo", que passam a não se distinguir graficamente de para e pelo.

Hífen

Os redactores do novo Acordo Ortográfico investiram um especial esforço na regularização do uso do hífen, sobretudo nas palavras formadas por prefixação. Algumas regras:

Quando o prefixo termina em vogal e a palavra seguinte começa com "r" ou "s", cai o hífen e dobra-se a consoante: "contrarrelógio".

Quando o prefixo termina em vogal e a palavra seguinte começa por uma vogal diferente, não se usa o hífen: "antiaéreo". Quando o prefixo termina com a vogal que inicia o elemento seguinte, usa-se o hífen: "contra-almirante". A excepção a esta regra é o prefixo "co-", que se aglutina com o elemento seguinte mesmo que este se inicie com um "o": "coocupante". Um dos exemplos que o texto do Acordo avança é "coordenar", que se torna graficamente indistinguível de "coordenar" no sentido de dirigir ou supervisionar.

Os hífenes caem também em algumas locuções nas quais ainda iam sendo usados, como "fim-de-semana". Mas abrem-se excepções para outras, nas quais esse uso foi considerado mais generalizado, como "pé-de-meia" ou "cor-de-rosa".

Uma alteração que será provavelmente mais difícil de interiorizar é a supressão do hífen em todos casos em que uma forma monossilábica do verbo haver se une à preposição "de". Passará a escrever-se, por exemplo, "hei de" e "hão de".

Ler: Acordo Ortográfico à lupa no parlamento português

Fonte

in Público do dia 8 de Abril de 2008

Sobre o autor

Luís Miguel Queirós nasceu no Porto, em 1962. Iniciou-se nas lides jornalísticas, no desaparecido O Comércio do Porto estando agora no Público. A sua atenção principal esteve sempre focada na literatura e, em particular, na poesia.