Andanças da minha escrita - Acordo Ortográfico - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa Acordo Ortográfico Artigo
Andanças da minha escrita

Os tementes a Deus, os reverentes da Academia e os assustados da gramática andam numa fona discreteando acerca do Acordo Ortográfico. É lá com eles. Tenho para mim que não vou tirar o P ao Baptista nem desacentuar o advérbio cristãmente, com til a coroar o A. Não vou deixar de entender o Guimarães Rosa, o Graciliano, o Godofredo Rangel, o Rubem Braga, o Mia ou o Luandino por cada um deles escrever do modo, com o tom e o registo fonético, sintáctico ou ortográfico que muito bem desejarem.

Gosto deles. Está dito. Possuem sopro original, grito d'alma, impulso. As confusões que por aí há, em vários domínios, géneros e categorias são gritantes. Chama-se crónica a artigo; conto a novela, comentário a ensaio. O disparate e a ignorância já têm carta de alforria. Vamos a isto: Agripino Grieco, temível crítico brasileiro, que se servia do cacete para infundir o temor, não para expor ideias, regougou, um dia, que cronista era uma espécie de nadador de piscina, e que romancista era de alto mar. Tolice. A qualidade de um texto não obedece a correlações aquáticas, nem há medidas decimais aplicáveis à literatura, assim como não há espartilho que imobilize a ânsia de liberdade que o idioma não deixa esmorecer.

Hemingway, velho mestre, é incomparavelmente melhor contista do que romancista. Um crítico disse que ele não sabia gramática; Edmund Wilson, o maior ensaísta norte-americano do século XX, consignou que o autor de O Adeus às Armas estava na posse de um estilo semelhante ao de Shakespeare. Scott Fitzgerald, o imenso escritor de Terna é a Noite e de O Grande Gatsby, redigia com pavorosos erros ortográficos. Não deixou de ser quem era.

Borges é um fascínio em três folhas de papel A-4. Manuel da Fonseca narrou o Alentejo, como ninguém, e, nas quatro páginas de O Largo disse da grandeza trágica da sua província. Duas páginas de Carlos de Oliveira valem mais do que todos os livros de António Lobo Antunes, um realejo maçador e agónico. Mas há Tchecov, Maupassant, Katherine Mansfield, Maria Judite de Carvalho, O. Henry, Carver, Michael Gold. Cronistas, contistas — onde a distinção? Cada qual com a sua ortografia, a sua gramática. Um jogo au naturel, sem preservativo, por isso com riscos imensos e desafios incomensuráveis.

Não quero que me furtem o estilo com camisas-de-forças ou camisas de Vénus. Fui editado no Brasil, há anos, através da Nórdica. O romancinho, A Colina de Cristal, obteve um êxito para mim inesperado. Havia uma imposição minha: nada de alterar a sintaxe; português de Portugal. Tal como Jorge Amado e Graciliano Ramos não permitiram que as suas estruturas verbais fossem adaptadas àquelas que são de uso em Portugal. Não sou dono da língua. Porém, não quero que esfolem a minha, pessoal, intransmissível, singular como uma dedada. Por isso admiro, com assombro e veneração, os demiurgos que não obedecem a regras, a regra é não ter regra, e lá estão o Ferreira Gullar, saúde companheiro!, o João Cabral de Melo Neto, o Carlos Drummond, nada de salsaparrilhas, gente de tinto espesso e de cachaça, minha gente, que leio, releio, copio e invejo. Como eles o fizeram, no diálogo emprestado que constitui a língua nossa, cordilheira infinita.

A língua é tua, é minha, é de todos nós. Estremeço de emoção com o português escrito e falado em Luanda, no Alto Xingu, em Cabo Verde, no Rio de todos os Janeiros e de todos os sons. Só um imbecil ou um cego mental podem converter o desabrido acto de liberdade que é o idioma numa referência de armazém.

Deus lhes cuide!, como se diz em Angola. Deus lhes olhe!, como no Rio de Janeiro. Deus os haja!, ouvi, certa noite numa rua de Luanda.

Quanto a mim, vou andando um pouco mais nesta escrita.

Fonte

crónica publicada na revista "África 21" de Dezembro de 2007

Sobre o autor

Baptista-Bastos (1934-2017), jornalista e escritor português, era considerado um dos maiores prosadores contemporâneos do país. Trabalhou em O Século, onde começou o seu percurso profissional, O Século Ilustrado, República, Europeu, O Diário; no vespertino Diário Popular, marcou, durante vinte e três anos (1965-1988), o jornalismo da época «com um estilo inconfundível» (Adelino Gomes). Participou também em programas de televisão: na RTP, assinou textos de documentários para Fernando Lopes (Cidade das Sete Colinas, Os Namorados de Lisboa, Este Século em que Vivemos); na SIC, teve o programa Conversas Secretas. Na rádio, foi cronista na TSF, Antena Um e Rádio Comercial. Traduzido em várias línguas, é autor de uma obra donde sobressaem: O Cinema na Polémica do Tempo (1959), O Filme e o Realismo (1962), no ensaio; e, na ficção, O Secreto Adeus (1963), O Passo da Serpente (1965), O Cão Velho a Tinta da China (1974), Viagem de um pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura (1981), A Colina de Cristal (1987) – Prémio Pen Clube e Prémio Cidade de Lisboa –, Um Homem Parado no Inverno (1991), O Cavalo a Tinta da China (1995), e No Interior da Tua Ausência (2002). Vencedor do Prémio de Crónica João Carreira Bom, relativo ao ano de 2005. Dele foi a autoria da famosa frase «Onde é que você estava no 25 de Abril?», mote das entrevistas que conduziu no programa Conversas Secretas, entre 1996 e 1998, no canal de televisão SIC.