Entre o que se diz e o que se queria dizer
Deslizes de palavra na linguagem política
Em poucos dias de abril, três intervenções públicas (uma publicação do Presidente da República, um comentário em podcast e uma análise televisiva) oferecem matéria suficiente para um breve inventário de deslizes linguísticos: um caso de influência semântica do inglês e duas confusões por paronímia.
Comecemos por um caso de influência inglesa. Numa publicação no Facebook, datada de 16 de abril, o Presidente da República António José Seguro, ao anunciar as suas escolhas para o Conselho de Estado, referiu ter procurado «um balanço entre géneros». A formulação denuncia um conhecido falso amigo: o inglês balance. Em português, balanço remete sobretudo para a ideia de oscilação, movimento ou até inventário contabilístico. O que aqui se pretendia era, muito provavelmente, equilíbrio ou paridade. O resultado é uma frase que, embora inteligível, não deixa de soar deslocada.
Passemos a um desvio por paronímia. No podcast E a tua semana como correu?, de 13 de abril, o político e advogado Francisco Rodrigues dos Santos, o conhecido Chicão, afirmou que a direita se esqueceu dos grandes temas que hoje em dia “infligem” a maior parte da população. Ora, infligir é «aplicar (uma pena, um castigo)», sendo o sujeito típico quem pune, não quem sofre. O verbo adequado seria afligir, que exprime precisamente a ideia de causar sofrimento ou angústia. Troca subtil na forma, mas não no sentido, e, por isso mesmo, reveladora.
Por fim, outro caso de palavras aparentadas que não se deixam confundir. No programa Provas Dadas, do canal NOW, emitido em 17 de abril, Aline Hall comentava um caso com evidentes implicações políticas: o de um suspeito de ter levado um cocktail molotov com a alegada intenção de o lançar contra a escadaria do Parlamento, num episódio em que se discutia precisamente a existência (ou não) de motivação ideológica.
Nesse contexto, afirmou, a propósito da situação e da atuação envolvida, que «isto não é displicente» e que se deveria saber em que circunstâncias estava a ser pago o advogado. O sentido pretendido seria o de que não se tratava de algo irrelevante ou negligenciável, isto é, de algo que pudesse ser desvalorizado. Ora, despiciendo é o adjetivo que exprime essa ideia. Displicente, pelo contrário, caracteriza uma atitude de desdém ou indiferença por parte de alguém. Uma coisa é o valor que se atribui a um facto; outra, a disposição de quem o encara.
Não se trata de preciosismo, trata-se da escolha das palavras que têm peso próprio. E a língua, embora tolerante, não é indiferente aos seus usos.
