A locução conjuntiva «devido a que»
As conjunções constituem uma classe fechada?
Em geral, os manuais de linguística tratam a categoria das conjunções como fechada, no sentido de que dificilmente recebe novos elementos [1] [2], ou seja, pensamos que elas formam uma lista fechada. Essa classe difere, pois, dos nomes, porque a nossa língua dispõe de regras morfológicas que permitem formar novos nomes a partir de outras categorias gramaticais: funcionar (verbo) > funcionamento (nome); velho (adjetivo) > velhice (nome). Então, a classe dos nomes é aberta, porque há operadores capazes de criar novos substantivos, tornando-os discretamente infinito.
Porém, como eu disse, isso é o que encontramos, em geral, nos materiais de linguística. Acontece que, enquanto pensarmos que «operadores morfológicos» são somente morfemas no sentido estrito (as «formas presas» para Mattoso Câmara [3]), de fato as conjunções nos parecerão rígidas, imutáveis, estáticas. Contudo, recentemente, veem-se certas combinações de locução prepositiva + que, formando uma locução conjuntiva, atribuindo novo valor semântico à oração. Há dados dessas formações no Corpus do Português [4], como exemplifico abaixo:
(1) «devido a que»: «Pode-se recorrer à psicoterapia ainda que os resultados sejam escassos devido a que o déficit cognitivo e da linguagem dificultam a terapêutica.»
(2) «a ponto de que»: «A reforma política é necessária, mas antes disso é preciso esvaziar politicamente o partido, a ponto de que não consiga acionar o rolo compressor no momento de uma votação tão importante e séria.»
(3) «a despeito de que»: «Pedir ajuda para fazer o que você poderia realizar com seus próprios recursos e esforço constituiria um ato forçado, a despeito de que a intenção embutida na atitude fosse a de compartilhar um bom momento com alguém.»
(4) «perto de que»: «Se ainda não é a maioria, estamos perto de que a maior parte das pessoas pense que a comissão política também não faz nada.»
Se bem lembrarmos, em alguns manuais de morfologia, há os chamados morfemas relacionais [5], que atuam como formas dependentes (no sentido de Câmara Jr. [3]), mas que, aparentemente, também são capazes de alterar a classe de locuções prepositivas. Ainda, parece que esse operador que também está presente em formas já cristalizadas na língua, como «apesar de que», «haja vista que», «a fim de que».
Portanto, isso é evidência de que, na dicotomia aberto-fechado para classes de palavras, as conjunções apresentam, sim, leve abertura, no que diz respeito às formas derivadas pelo operador que, a partir das preposições. Não parece haver, todavia, nenhum outro operador morfológico capaz de gerar conjunções na língua portuguesa.
Bibliografia
[1] M. C. Rosa, Introdução à Morfologia, São Paulo: Contexto, 2019.
[2] I. Sutchuk, Prática de Morfossintaxe, São Paulo: Manole, 2018.
[3] J. M. Câmara Jr., Estrutura da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro: Editora Vozes Limitada, 1970.
[4] M. Davies, Corpus do Português: Web/Dialects, [Online]. Available: http://www.corpusdoportugues.org/web-dial/.
[5] J. C. Monteiro, Morfologia Portuguesa, Campinas: Pontes, 2002.
