Controvérsias // Ciência e tecnologia
O que perdemos quando deixamos de parar para procurar no dicionário?
Uma leitura crítica a partir do artigo de Louis Menand na revista The New Yorker
Existem objetos que, pela necessidade ou pelo contexto de cada época, acabam por marcar naturalmente o nosso quotidiano. Hoje, é quase unânime reconhecer o telemóvel como o objeto a que recorremos com maior frequência ao longo das tarefas diárias. No entanto, utilizamo-lo muitas vezes sem nos lembrarmos de que, noutros tempos, dependíamos de outros objetos que cumpriam exatamente as mesmas funções que agora concentramos no telemóvel, como é o caso do dicionário. Outrora árbitro supremo de disputas familiares, ferramenta de trabalho escolar ou companheiro silencioso de quem queria escrever melhor, parece que atualmente o uso do dicionário se está a dissipar no ar como tantos outros hábitos antigos. É justamente uma reflexão sobre a perda do hábito de consultar o dicionário que levou, em meados de dezembro, o ensaísta Louis Menand a escrever na revista norte-americana The New Yorker o artigo “Is the dicionary done for it?”.
Este artigo revela, com uma lucidez quase desconfortável, que a tarefa de usar um dicionário já há muito que deixou de ser hábito até daqueles que prezam o bem falar e escrever. Segundo o autor deste artigo, recorrer à explicação de que a internet democratizou o acesso à informação é cair numa argumentação comum e demasiado fácil, uma vez que o que está verdadeiramente em causa é uma certa erosão de uma confiança coletiva na autoridade linguística. E o dicionário, símbolo do que está correto, tornou-se apenas um mero objeto que decora estantes de bibliotecas ou, no caso dos dicionários online, a que se acede como último recurso.
Em Portugal, este fenómeno assume contornos particularmente reveladores. Durante décadas, nomes como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ou o Houaiss eram presenças quase obrigatórias em muitas casas, símbolos de um certo orgulho linguístico e de uma relação afetiva com a norma culta. Nas escolas, o dicionário era não apenas um instrumento, mas uma prática de aprendizagem, ou seja, era usado para aprender a procurar uma palavra, a decifrar abreviaturas, a comparar aceções. Hoje, porém, mesmo com a vitalidade de projetos como o Ciberdúvidas, a consulta sistemática do dicionário parece ter perdido espaço para mecanismos automáticos de correção, motores de busca, aplicações que prometem respostas instantâneas e até mesmo a Inteligência Artificial. Esta mudança não reflete apenas uma evolução tecnológica, mas também uma transformação cultural mais profunda, em que a investigação paciente foi substituída por uma urgência permanente em obter resultados imediatos.
A par disto, Louis Menand nota, no seu artigo da The New Yorker, que a figura do lexicógrafo, vista em tempos como austera e invisível, aparece agora como um profissional em vias de extinção, quase um artesão num mundo de produção industrial, sendo que a sua tarefa de recolha, definição e estabilização parece cada vez mais impossível num ambiente em que as palavras surgem, se transformam e desaparecem com a velocidade de um meme. Isto de certa forma não deixa de ser irónico, uma vez que parece que nunca houve tantas palavras, tantos registos e tantos usos novos e, contudo, nunca foi tão difícil fixar o que quer que seja.
A língua tornou-se um organismo hiperativo, alimentado por redes sociais, subculturas digitais, híbridos linguísticos e modas efémeras. É neste contexto que o dicionário, que durante séculos prometeu ordem, é agora confrontado com um caos que já não consegue domesticar.
Contudo, esta problemática pode ainda ser entendida como mais profunda, ecoando o que já foi discutido no texto do Ciberdúvidas sobre a leitura entre os jovens. O problema não é exclusivamente tecnológico, mas também cultural. Assim como os livros longos exigem uma atenção que é cada vez mais difícil de ter e manter, também a consulta de um dicionário pressupõe uma relação com o saber que valoriza o tempo, a paciência e a meditação. Atualmente, a procura de significados das palavras é imediata, fragmentada e muitas vezes superficial, sendo que o utilizador não quer uma definição completa de um determinado termo, mas antes uma resposta rápida, um exemplo ou confirmação de uma suposição que tem.
Tudo isto, de certa forma, faz com que algo se perca. Perde-se a noção de que a língua é uma construção coletiva, histórica e sedimentada. Perde-se a consciência de que as palavras têm camadas, tensões e ambiguidades. E, sobretudo, perde-se a ideia de que o significado não é apenas aquilo que aparece no topo dos resultados do Google.
No fundo, a questão que fica com a leitura deste artigo é a mesma que atravessa tantos debates contemporâneos sobre cultura e conhecimento: o que perdemos quando deixamos de ter objetos que nos obrigam a parar, pensar ou interpretar? E, neste sentido, talvez o dicionário, físico ou digital, continue a ser útil não tanto pelas respostas que dá, mas sobretudo pelo gesto que representa, isto é, o reconhecimento de que compreender uma palavra é sempre mais difícil e mais fascinante do que parece.
