Seguro, a homonímia e a antonímia nas eleições para a Presidência da República em Portugal
António José Seguro foi o candidato mais votado nas eleições para Presidente da República, com lugar a 8 de fevereiro de 2026. No dia seguinte, os títulos dos principais jornais estruturaram-se com base num jogo de palavras. Lia-se nas capas «Seguríssimo» (Público), «Presidente Seguro» (Jornal de Notícias), «Portugal a Jogar pelo Seguro» (Correio da Manhã). O interesse linguístico destes títulos reside no facto de explorarem a homonímia existente entre o nome próprio Seguro e o adjetivo ou nome seguro. É o adjetivo que está presente no título do jornal Público, como se comprova pela flexão da palavra no grau superlativo absoluto sintético e é também o adjetivo que incide sobre o nome Presidente no título do JN. Já no título do Correio da Manhã, o jogo linguístico é feito com o nome seguro. Nestas combinações mobilizam-se valores semânticos como a «estabilidade», a «firmeza» ou mesmo a «confiança», um conjunto de traços que se associam à figura do próximo Presidente da República e que o seu apelido permitiu explorar de forma bastante rica. Foi também o apelido Seguro que deu azo a que, no decurso da campanha eleitoral, se explorassem as possibilidades da coesão lexical assentes num processo de antonímia que buscava estabelecer um contraste entre os dois candidatos: António José Seguro e André Ventura. Assim, Seguro opôs-se a inseguro e abriu caminho a relações antinómicas como estabilidade vs. instabilidade, moderação vs. extremismo ou melhor vs. pior, um conjunto de pares de palavras que mostra como os discursos associados aos candidatos e a perceção que deles tem a população portuguesa arrastaram as eleições para posições extremas.
Ainda a este propósito, uma nota para o uso do adjetivo incumbente para descrever a situação do atual Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Incumbente é neste contexto usado com o sentido de «que ou quem ocupa um cargo de posição oficial», como refere Carlos Rocha neste apontamento, onde explica que, em Portugal, o termo ganhou atualidade em 2021 para «referir o presidente em final de mandato, Marcelo Rebelo de Sousa.» Este uso volta agora a identificar-se na comunicação social, constituindo uma tradução direta do termo inglês que, em língua portuguesa, não se justifica porque esta dispõe de outros recursos para descrever a mesma realidade.
Por fim, a propósito do discurso de vitória de António José Seguro, leia-se a reflexão sobre o uso da forma vós proposta pela investigadora Marcela Faria, que admite que este pronome pessoal continuará a ter vitalidade no discursos do próximo Presidente, à semelhança do que se verifica com o que se encontra ainda em exercício de funções.
