Vestidos à espanhola - Diversidades - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Outros Diversidades Artigo
Vestidos à espanhola

A imagem do galego na literatura portuguesa

Existe, no romance português de época recente, certa linha revisitadora da identidade, que vem reclamar-se da Galiza como nunca antes. Há as histórias de avoengos (Fernando Assis Pacheco, Wanda Ramos), há metáforas do iberismo (A Jangada de Pedra, de Saramago), há uma caminhada histórica conjunta (O Trono do Altíssimo, de João Aguiar), há um ar de portugalidade periférica (As Duas Águas do Mar, de Francisco José Viegas). Há, até, o investimento poético, como em Ilha sobre Ilha, de Firmino Mendes, mesmo tendo o júri do APE, que o premiou, destacado o «tratamento insular», incônscio de que se aludia à prática de campismo na Galiza.

Mas não é tudo. A presença galega nas letras lusas tem sido, também, enfeite paisagístico, com tendência a vestir-nos à espanhola. Isso é patente em Breviário das Más Inclinações, de Riço Direitinho, é berrante em Muros, de Júlio Machado Vaz. O Breviário... recria cenários, temática, mundo de telúrica raiz galega, e no entanto a marca da Galiza faz-se via castelhano. Em Muros, a partir de um arquitecto frequentador da Galiza, temos um mais actual e documentado guia turístico - com pior miopia e erros de língua. E, todavia, isso entende-se. As letras reflectem o estigma cultural que distingue como predominantemente espanhol o que está acima do Minho. E nós, galegos, devemos primeiro estimar que os autores nos visitem, e esperar podermos oferecer, algum dia, condições que lhes permitam distinguir melhor. Revoltar-nos contra a imagem espanholada que temos em Portugal não quadraria com o qualificativo que, por boca do Gama, nos pôs Camões, o do «galego cauto», teimosamente disposto a sobreviver.

Apreciemos, antes, o Eugénio de Castro antigo a reparar no idioma igual, «Um quase português d’anjo estrangeiro...» - e na sobrinha do estanqueiro que o fala. Ou o Fialho dos Cadernos de Viagem, de 1905, a observar: «Quanto mais me interno na Galiza, mais o dialecto falado se parece com o português» - isso no meio dum panorama espanholizado.

Preferimos a claridade da terra e da língua, sobretudo perante outros cenários, como o de O Mar de Madrid, de João de Melo, romance da «estranheza» entre Espanha e Portugal (representada no desencontro amoroso entre um poeta português e uma escritora catalã), que deixa à Galiza a «prodigiosa verbosidade galega de sempre» e o papel canalha do marido da protagonista, «um galego bonito, sedutor e infiel» que lhe rebenta a cara a murros. Passar de maltratados a maltratadores não é mais reconfortante - ainda que prove o saber camoniano sobre a mudança.

Fonte

Sobre o autor

Carlos Quiroga é professor de literaturas lusófonas na Universidade de Santiago e Diretor do Conselho de Redação da Revista Agália. Algumas das suas obras: A Espera Crepuscular (2002), O Regresso a Arder (2005), Inxalá - Espero por ti na Abissínia (2006), Venezianas (2007).