O patoá de Macau, uma língua em risco - Diversidades - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O patoá de Macau, uma língua em risco
O patoá de Macau, uma língua em risco
E uma mulher macaense de 103 anos que ainda a fala

«Esta língua híbrida [o patoá] combina o português com o cantonês, o idioma local de Macau, bem como com o malaio, o cingalês e várias línguas indianas que os comerciantes portugueses encontraram na Ásia.»


• Quando jovem, Aida de Jesus falava patoá em casa, com a avó. Hoje, apenas 50 pessoas falam esta língua crioula seriamente ameaçada.

• A filha sente que testemunha o último capítulo da história da comunidade dos macaenses – ou seja, dos indivíduos que, em Macau, têm ascendência mista, luso-chinesa.

Macau, cidade situada na costa sul da China, é mais conhecida hoje pelos seus casinos, mas até há 20 anos, era uma colónia administrada pelos portugueses. Ao longo deste período de domínio colonial, que durou mais de 400 anos, muitos comerciantes portugueses casaram-se com mulheres chinesas e os seus filhos desenvolveram uma cultura própria, com uma cozinha e um idioma característicos.

Aida de Jesus é filha dessa herança. Durante a infância, em Macau, cresceu a ouvir português nos becos e, em casa, a falar com a avó o patoá, que é um crioulo. Agora com 103 anos, Aida viu Macau tornar-se a capital mundial dos casinos, arrecadando cinco vezes mais dinheiro que Las Vegas. Porém, ela é das poucas sobreviventes de uma raça em extinção, pois, hoje, apenas 50 pessoas ainda falam patoá, de acordo com a Unesco, que considera o idioma seriamente ameaçado. O declínio é devido em parte a considerar-se frequentemente esta língua como inferior ao português. «Quando eu estava na escola, eles não gostavam de falar patoá, porque achavam que não era português de verdade», diz a filha  de Aida, Sónia Palmer, de 75 anos, que vê o português como a sua língua materna.

O patoá surgiu como resultado do comércio e do casamento de portugueses com mulheres autóctones, política que foi incentivada pela administração portuguesa no século XVI como uma maneira de "criar" mais súbditos. Esta língua híbrida combina o português com o cantonês, o idioma original de Macau, bem como com o malaio, o cingalês e várias línguas indianas que os comerciantes lusos encontraram na Ásia.

Apesar de mãe e filha saberem ambas falar patoá, quando peço que conversem,  Aida volta frequentemente ao português. «Infelizmente, faleceu a maioria das amigas da minha mãe», explica Sónia. «Tardiamente, ela também aprendeu português, e agora raramente fala patoá.» Sónia sente que está a testemunhar o último capítulo da história do seu povo, os Macaenses, e da sua cultura diferente.

Os Macaenses são geralmente definidos como gente de Macau com ascendência luso-chinesa, embora alguns também tenham raízes na Índia e noutros postos comerciais portugueses (algumas famílias macaenses podem até não ter sangue chinês). Tinham uma presença importante na cidade, dominando o funcionalismo na justiça e no executivo no tempo em que os Portugueses a administraram de 1500 a 1999, quando Macau foi devolvida à China. Contudo, este grupo étnico representa atualmente menos de 1% da população da cidade, de acordo com o último recenseamento, de 2011. Muitos são frequentemente confundidos com estrangeiros na sua própria cidade por causa da sua aparência.

«As pessoas mais antigas de Macau reconhecem bem os macaenses», diz Sérgio Perez, cineasta macaense. «Às vezes, podem pensar que sou estrangeiro, mas no momento em que começo a falar cantonês, pensam: "Este tipo é mas é macaense."» Presentemente, Perez diz que costuma ser elogiado por falar cantonês. «Faz parte da minha vida quotidiana.»

A mudança de rosto da cidade

As mudanças demográficas em Macau estão ligadas ao desenvolvimento económico da cidade desde a sua devolução à China em 1999. O ano de 2002 foi um momento decisivo, quando o Governo chinês encerrou o monopólio de quatro décadas na indústria do jogo e emitiu licenças para gigantes de Las Vegas, como Wynn Resorts e Las Vegas Sands. Estes começaram a construir em Macau, e, quatro anos depois, a cidade superava Las Vegas em receita. Ao mesmo tempo, a população de Macau saltou de 440 000 em 2002 para 653 000 em 2017. Grande parte desse aumento populacional ocorreu por causa da entrada de trabalhadores na cidade à procura de emprego nos casinos. Mais da metade da atual população nasceu na China continental, de acordo com o recenseamento de 2011. Com o tempo, muitos macaenses deixaram a cidade em busca de novas oportunidades.

É difícil calcular o número de Macaenses em todo o mundo, mas um estudo de Roy Eric Xavier, pesquisador visitante da Universidade da Califórnia, em Berkeley, estima-o em mais de um 1,5 milhão. «É uma população oculta porque está espalhada», diz Xavier. «Estão por toda parte, da África à Austrália.» Existem muitas associações no estrangeiro, como a Casa de Macau, que mantém as ligações da rede da diáspora. Algumas pessoas são convidadas a voltar a Macau todos os três anos, em viagens parcialmente financiadas pelo Governo. Segundo Xavier, as redes sociais também ajudaram os Macaenses no estrangeiro a manter contacto com muitos grupos do Facebook dedicados à cultura macaense.

Preservar a herança

«O período imediatamente anterior à transferência marcou um aumento de interesse na cultura macaense, embora, nesse tempo, muitos dos seus representantes já tivessem saído de Macau», diz Cathryn Clayton, presidente do programa de estudos asiáticos da Universidade do Havai, em Manoa. «O Governo português saudou os Macaenses como um "legado vivo" da presença portuguesa na Ásia», acrescenta, «e financiou muitos projetos para traçar genealogias macaenses, registar a língua crioula e produzir livros de cozinha sobre a gastronomia macaense.»

«Havia interesse especial entre os académicos chineses do continente, que produziram centenas de artigos de investigação na década posterior à transferência. Os investigadores do continente interessaram-se em mostrar a forte influência da cultura chinesa, que talvez tenha sido menosprezada anteriormente, quando os Macaenses eram considerados portugueses», observa Clayton.

Foi nessa época que Sónia cofundou um grupo de teatro amador, o Doci Papiaçám di Macau, dedicado à preservação do patoá. Todos os anos, o grupo encena uma peça em patoá com legendas em chinês, português e inglês. Sónia está decidida a continuar. «Acho que estamos a fazer um bom trabalho», diz ela. «Embora seja um idioma moribundo, de certo modo, preservámo-lo durante 25 anos e esperamos continuar.»

 

N.E. – O patoá de Macau tem também outras denominações: macaísta, macauenho, macauês (cf. Dicionário Houaiss). Ocorre frequentemente a forma "patuá" em lugar de patoá, mas esta é a grafia correta do nome da língua em apreço (cf. Rebelo Gonçalves, Vocabulário da Língua Portuguesa, 1966). Patuá, com u, permite designar alguns tipos de cesto ou saco (cf. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Para mais informação sobre o patoá de Macau, leia-se o trabalho initulado "Maquista úndi vôs ta vai?", em linha nas páginas eletrónicas da Conexão Lusófona. Do canal que o grupo Doci Papiaçám di Macau mantém no Youtube, provém o seguinte vídeo, que procura recriar o que pode ser conversar em patoá (também disponível na referida peça do sítio da Conexão Lusófona):