Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Transmitido não genético

Não me recordo de uma palavra e já tentei pesquisar sem sucesso. Será que alguém me pode ajudar? A palavra quer indicar a passagem de pais para filhos que não seja algo genético. Por exemplo, o medo de aranhas pode passar de pais para filhos, mas não é hereditário que se diz, porque não é genético, como por exemplo a cor dos olhos, que é hereditário, visto ser genético. Alguém me sabe dizer qual a palavra que explica o que digo?

Obrigado!

José Beleza Eng Telecomunicações Lisboa, Portugal 438

     Comecemos por distinguir o que é inato do que é adquirido. Os  caracteres inatos dizem respeito à genética, às transformações que se processaram nos nossos genes com a evolução e passaram aos descendentes pelas leis da genética; os adquiridos, à influência do ambiente.

    Quanto ao medo, tudo o que possa ser perigoso para a vida é recusado nessas características inatas; no sublinhado por Damásio em homeostasia: a tendência da vida para “persistir e prevalecer”.

    Inclui-se, naturalmente, por exemplo, o medo às aranhas, pela verificação da capacidade de imobilização das presas; bem como às cobras, pelo ataque inesperado e pelo veneno de morte.

    O medo exagerado, a fobia, não me parece que seja inato, mas adquirido: por experiências traumáticas ou por uma influência formativa nefasta. Pode, também, ser uma deficiência específica mental do indivíduo. Sempre com a ressalva de que haja já no ADN familiar uma mutação persistente que determine essa tendência, então genética.

    Não sendo genética, a tendência terá passado de pais para filhos por hábitos familiares; e, logo, será adquirida.

    Assim, sugiro para estes casos duvidosos o termo transmitido, permitindo a ambivalência da transmissão inata ou da adquirida. O termo genético representa `normalmente´ uma inevitabilidade inata. Aceito, porém, que especialistas consigam termo mais adequado, o que agradecemos.

    Em resumo, esta interessante pergunta, em que, na resposta, me aventurei em campo científico que não é a minha especialidade, serviu só para acentuar como a escolha das palavras adequadas (com essa  propriedade) pode ser muito importante num discurso. Se eu disser que numa família o medo “excessivo” às aranhas é genético, espera-se que o próximo membro venha muito provavelmente com essa tara; mas se eu disser que está a ser transmitido, há sempre a hipótese de ficar a ideia de que seja evitável essa transmissão. Uma palavra diferente permite, subtilmente, um cambiante no sentido.

    Adequar as palavras ao sentido exato que se pretende dar é uma arte na mensagem. E aproveito para lembrar, no «discurso engenhoso» do P.e António Vieira, a magistral propriedade no seu Estatuário¹, um encantamento na língua. 

Ao seu dispor,

 

¹ Pe. António VieiraSermão do Espírito Santo, 1657 

D´Silvas Filho
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: adjectivo