Todos-os-Santos vs. «Todos os Santos» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Todos-os-Santos vs. «Todos os Santos»

Os meus cumprimentos à equipa do Ciberduvidas, pelo papel insubstituível na defesa da língua, num contexto em que são raros os instrumentos linguísticos (gramáticas, dicionários, prontuários...) que sirvam de "bíblia" (ao contrário do francês, por ex.). De salientar também a honestidade e seriedade intelectual com que tratam as questões postas.

Encontro «Todos os Santos» e «Todos-os-Santos» (dia ou hospital) em documentos antigos e recentes, numa grafia alternada. Consultadas várias fontes, não encontro resposta. Podem responder com fundamento?

Muito obrigada.

Maria Lopes Revisora Coimbra, Portugal 4K

Muito agradecemos as palavras de apreço que nos dirige. Note, no entanto, que não pretendemos criar doutrina sobre a norma do português, antes sendo nosso papel orientar os consulentes na escolha das opções mais adequadas dentro da tradição e das tendências do português contemporâneo.

Quanto à questão apresentada, informamos que, neste caso, a hifenização depende do tipo de uso que se dá à expressão em apreço quando é nome próprio.

Se se trata de um topónimo, deve escrever Todos-os-Santos, conforme preveem quer o anterior acordo ortográfico (o de 1945) quer o mais recente, de 1990:

Acordo Ortográfico de 1945 (AO 1945), Base XXVIII:

«[...] De acordo com as espécies de compostos que ficam indicadas, deveriam, em princípio, exigir o uso do hífen todas as espécies de compostos do vocabulário onomástico que estivessem em idênticas condições morfológicas e semânticas. Contudo, por simplificação ortográfica, esse uso limita-se apenas a alguns casos, tendo-se em consideração as práticas correntes. Exemplos:

a) nomes em que dois elementos se ligam por uma forma de artigo: Albergaria-a-Velha, Montemor-o-Novo, Trás-os-Montes [...].»

Acordo Ortográfico de 1990 (AO 1990), Base XV:

«2 Emprega-se o hífen nos topónimos/topônimos compostos iniciados pelos adjetivos grã, grão ou por forma verbal ou cujos elementos estejam ligados por artigo: Grã-Bretanha, Grão-Pará; Abre-Campo; Passa-Quatro, Quebra-Costas, Quebra-Dentes, Traga-Mouros, Trinca-Fortes; Albergaria-a-Velha, Baía de Todos-os-Santos, Entre-os-Rios, Montemor-o-Novo, Trás-os-Montes.»

Verifica-se, assim, que o critério enunciado nas duas transcrições se reporta claramente ao topónimo Baía de Todos-os-Santos.

Já a respeito da designação do dia festivo, o AO 1945 parece omisso, mas Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa (1966), embora registe a entrada Todos-os-Santos como topónimo, com hífen, contrasta-a com a locução hieronímica «dia de Todos os Santos», que não hifeniza. Também no AO 1990, na Base XIX, 2.º, se escreve Todos os Santos, sem hífen:

«2     A letra maiúscula inicial é usada:[...]

e) Nos nomes de festas e festividades: Natal, Páscoa, Ramadão, Todos os Santos. [...]»

Pode concluir-se, portanto, que, entre o topónimo Todos-os-Santos e o nome da festividade Todos os Santos, os critérios ortográficos não são os mesmos, verificando-se até certa incongruência, certamente a ter em conta numa futura revisão geral da ortografia dos nomes próprios.

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: nome próprio