Telenovelas brasileiras e colocar / pôr - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Telenovelas brasileiras e colocar / pôr

Por um feio (e pernóstico) hábito de linguagem, muitos brasileiros empregam o verbo "colocar" em lugar do verbo "pôr", em construções como esta: "Colocou em cima da mesa...". Isto, contudo, não configura uma "norma" no Brasil, tal como pressupõe a seguinte resposta do Ciberdúvidas, datada de 19/6/00: "Na norma portuguesa, emprega-se o verbo pôr em todas as expressões citadas. Torna-se até um pouco especioso o uso do verbo colocar, embora ultimamente se ouça muito. Talvez por influência da norma brasileira veiculada pelas telenovelas..."

   Concordo com a intenção da crítica, mas não com seu conteúdo. Norma é sinônimo de regra. Em matéria vernácula, as normas são fixadas pela tradição, pelos cultores da língua, pela boa literatura. Telenovelas não ditam normas. Apenas macaqueiam os vícios da linguagem popular.

   A propósito, preferiria que o Ciberdúvidas, ao tratar do português do Brasil, utilizasse o parâmetro consagrado pelos bons autores, que temos muitos. É um favor que lhes peço. Julgar o nosso português pelo que se escuta nas telenovelas é quase uma forma de humilhar – muito embora, apresso-me a dizer, não tenha sido esta a intenção, no caso específico.

   Obrigadíssimo.

José de Almeida Padilha Brasil 5K

Tem toda a razão, caro consulente. Foi erro meu considerar norma um pernóstico (é o termo) hábito telenovelesco. Mas também é verdade que os «erros» muito repetidos se tornam «normais», isto é, fazem norma.

   Aconteceu em Portugal, por exemplo, com a palavra xícara: os pernósticos acharam-na feia, rústica, e passaram a dizer «chávena». Hoje, toda a classe média urbana e suburbana emprega o termo, confinando a xícara às alfaias das mesas rurais e aristocráticas. Um dia, até dessas desaparecerá…

   Permita-me que lhe dê conta do meu conhecimento e admiração por bons autores brasileiros – de Machado de Assis a Guimarães Rosa passando por Lins do Rego. Infelizmente não estou (estamos), deste lado do Atlântico, a par da moderna literatura brasileira, e tendo (tendemos) a tomar como referência o que me (nos) chega a casa dia após dia, ano após ano, via pequeno ecrã. Mea (nostra) culpa

   Não tive mesmo a intenção de apoucar: o meu comentário foi feito com leviandade, mas sem malícia. As minhas desculpas.

   Chamarei a atenção do Ciberdúvidas para a sua recomendação.

   Muito obrigada.

Teresa Álvares