Sobre a palavra caixa automática - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Sobre a palavra caixa automática

Na maioria dos documentos destinados ao pagamento de serviços é vulgar fazer-se referência ao «caixa automático», expressão contemplada no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, que apresenta, como respaldo, uma notícia publicada no jornal Público. Como se isso fosse justificação!

Se é verdade que o adjectivo deve concordar com o substantivo, em género e número, caixa só pode ser automática e nunca automático. Quando caixa é apresentada no masculino (o caixa) sem dúvida que estamos perante o indivíduo que exerce essas funções em qualquer estabelecimento ou repartição. Mas esse, de automático nada tem. Assim, o que se encontra no Multibanco é a caixa automática e não «o caixa automático».
Esta é a minha opinião. Gostaria, porém, de saber se a outra, a dos documentos para pagamento de serviços (e do tal dicionário) também se pode considerar correcta.

Os meus agradecimentos.

Ferreira Simões Portugal 5K

Parece-me que a expressão adequada é caixa-automática, uma vez que se fala numa caixa que é a alternativa automatizada a «um balcão» onde se atendiam clientes; ou seja, a caixa automática é o espaço de uma dada actividade de carácter financeiro. O recente Grande Dicionário da Língua Portuguesa inclui, de resto, a forma caixa automática, atribuindo-lhe duas acepções, das quais só a primeira é aqui relevante: «aparelho electrónico que permite efectuar várias operações bancárias» e «[em mecânica automóvel] dispositivo que permite engrenar velocidades sem utilização de embraiagem».

No entanto, compreendo que se possa encarar a máquina em referência de outra maneira. Se, segundo o mesmo Grande Dicionário, caixa pode também ser um nome dos dois géneros, significando «pessoa que exerce as funções de recebedor e de pagador de uma empresa», não vejo maneira de excluirmos completamente a expressão caixa automático. É que tanto homens como mulheres podem ser caixa, podendo-se, pois, dizer que «ele é o melhor caixa» ou «ela é a melhor caixa».

Arrisco a seguinte conjectura: porque a profissão de caixa foi, durante muito tempo, masculina, gerou-se o preconceito linguístico (e não só) de que quem nos atende ao balcão de um banco é «um caixa». Logo, a máquina donde se levanta dinheiro é também «um caixa, só que «automático».

Ainda assim, convencionando que uma caixa é «um balcão» e reconhecendo que, além dos caixas, há também as suas congéneres femininas, as caixas, não vejo razão para continuarmos a dar o género masculino a um objecto que é uma máquina – palavra que, a propósito, é também do género feminino…

Carlos Rocha
Campos Linguísticos: Contrastes de género; Concordância