Sobre a grafia de Delfos e outros nomes próprios - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Sobre a grafia de Delfos e outros nomes próprios

A dúvida que venho levantar surgiu-me numa aula de Português que tive recentemente. Na ocasião, ditava a professora alguns apontamentos sobre Sophia de Mello Breyner. Quando falou acerca da sua formação em Filologia Clássica, comentou acerca do modo como Sophia grafava as palavras gregas utilizando dígrafos como ‹ph› e ‹th›. Olhando para o meu caderno, onde (por ter surgido algures no ditado) estava escrita a palavra «Delphos» assim grafada, comentei o facto de eu fazer o mesmo. Fui prontamente instruído para que não o fizesse, porque, citando a professora, «as normas da língua assim o exigem».

Inconformado, procurei informar-me mais sobre o assunto. Pesquisando no Dicionário Porto Editora 2008 descobri que Delphos ainda não foi incorporado na língua como Delfos, a menos que esta palavra conste de outros dicionários mais completos. Pouca diferença faria, contudo, visto que o facto de uma palavra estrangeira ser introduzida na língua não me forçaria a utilizá-la com a grafia portuguesa (como confirmado pela resposta a uma dúvida que levantei anteriormente aqui no Ciberdúvidas, referente a aportuguesamentos).

De seguida, pesquisei os métodos oficiais de romanização do grego antigo, e verifiquei que, para esta língua específica (isto é, o grego antigo por oposição ao grego moderno), um grande número de sistemas de romanização (há muitos, como seria expectável) aceita o uso deste tipo de dígrafos em detrimento das letras isoladas.

Mantenho assim a minha convicção de que nada há de errado em escrever, para manter o mesmo exemplo, Delphos.

A partir desta questão originou-se outra dúvida: como proceder no que respeita aos nomes próprios? A minha professora de Português, estou certo, não hesitaria em escrever Hélio, Édipo, Pitágoras e (já agora) João (como em «A Vida e Morte do Rei João», peça de Shakespeare). Mas porque não posso eu grafar Helios, Œdípous, Pythagoras e Rei John, para não falar de (já que mencionei Shakespeare) Romeo e Juliette? Sou um defensor de que antropónimos não se devem traduzir... e contudo, se escrevesse «Œdípous» num teste de Português, seria certamente penalizado.

Em que ficamos? Existe alguma regra que determine uma romanização oficial do grego antigo para uso em textos portugueses? E no que toca a antropónimos, como devo proceder?

Sem mais por agora, agradeço antecipadamente.

Gil Henriques Estudante Amadora, Portugal 4K

A sequência de origem grega ph perdura normalmente em português sob a forma de f. Daí que seja natural que a forma Delphos apareça em português como Delfos.

O Dicionário Porto Editora 2008 que refere não regista a palavra Delfos porque se trata de um nome próprio. Assim como não regista a palavra aportuguesada, também não regista a palavra Delphos.

Não é missão dos dicionários gerais registar nomes próprios, pelo que não será de esperar que a palavra conste (como entrada) em dicionários mais completos. Pode, no entanto, encontrar a palavra délfico no dicionário que referiu, com o significado seguinte: «relativo a Delfos, cidade grega antiga».

Pode, também, consultar a enciclopédia da mesma editora para verificar que a grafia na entrada referente a esta antiga cidade grega é Delfos [Delfos. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2008. [Consult. 2008-09-20]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$delfos>].

A tradução dos antropónimos tem muito que ver com questões de uso (e não encontramos grande constância neste aspecto). Em tempos, era normal traduzir os nomes próprios para português, tradição que parece estar a desaparecer aos poucos.

Veja-se, por exemplo, uma vez que fala do rei João, a família real inglesa. Historicamente, os reis ingleses que conhecemos têm nomes traduzidos para português: Henrique V, Henrique VIII, João I (João Sem-Terra) ou Ricardo III só para dar alguns exemplos — vemos também que os livros de William Shakespeare se chamam em português Otelo (não Othello), Henrique IV (não Henry IV), Ricardo III (não Richard III). Na família real actual temos a rainha Isabel II (queen Elizabeth II) ou príncipe Carlos (prince Charles).

No entanto, hoje vemos que os filhos do príncipe Carlos são William e Harry e não Guilherme e Henrique, o que não é mais do que um sintoma do que se passa nos dias de hoje: a generalidade dos antropónimos actuais não é traduzida.

Olhando para outras figuras de relevo, verificamos que William Shakespeare nunca foi, em português, Guilherme, mas Thomas Moore é Tomás Moro e Martin Luther é Martinho Lutero. Vemos que Platão, Sócrates ou Aristóteles são formas consagradíssimas em português. Que José Estaline ou Vladimir Lenine sofreram aportuguesamento. E muito mais exemplos haveria.

Assim, aquilo que eu aconselho em relação aos antropónimos é que verifique se o nome da figura que pretende escrever foi historicamente usado em português ou mantido na língua original. E faça, a partir daí, a sua escolha.

Nuno Carvalho