Sobre a divisão silábica, e não translineação - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Sobre a divisão silábica, e não translineação

Enviei há 2 ou 3 dias um pedido de esclarecimento para aí, questionando sobre se estaria correcto a professora do meu filho classificar como errado a divisão silábica de palavras com dígrafos (Ex: ca-rro, co-rri-da, re-sso-nou), tomando como certas respostas que obedecessem às regras da translineação.
O exercício era claro e pedia que se dividissem as palavras por sílabas.
Eu sei que o assunto já aqui foi debatido muitas vezes, já li os Temas... mas a questão que coloco tem a ver com "legitimidade no ensino".
Será correcto um professor leccionar dessa forma?
Isto baralha muito as crianças, principalmente quando levam um ralhete na escola por terem levado os trabalhos mal feitos e, acima de tudo, por dizerem que foi o pai que os supervisionou em casa e induziu a fazer daquele modo!
Continuem o bom trabalho feito nesta página. Foi o local onde, até agora, encontrei mais documentação referente a este meu pequeno problema.
Até hoje não recebi por ‘e-mail’ ou vi aqui alguma resposta.
Agradecia imenso a V. opinião.

José Sampaio Técnico Lisboa, Portugal 5K

As palavras carro e corrida contêm um som que, salvo contextos específicos como em perna, Carla, rato, se grafa dobrando a consoante r. Esta repetição é necessária para que o som /R/ – como em carro – se não confunda com o som /r/ – como em caro. Do ponto de vista da divisão silábica essas duas consoantes representam o mesmo som e mantêm-se juntas, sendo a divisão, respectivamente, como o consulente refere, ca-rro e co-rri-da. Diferente desta convenção de escrita que nos permite distinguir dois sons é a convenção subjacente à translineação, que, em língua portuguesa, prevê a separação dos dígrafos (ou grupos de duas letras, normalmente equivalendo a um só som) quando eles ocorrem em posição que implique o corte da palavra para mudança de linha.
Assim, em translineação e em palavras como carro e corrida, separam-se as duas consoantes car-ro; cor-ri-da.
Do ponto de vista normativo são estas as duas convenções subjacentes à questão colocada.
Relativamente à aprendizagem, convém distinguir duas coisas. Por um lado, o conceito de sílaba e de palavra; por outro, as regras de translineação. Devo confessar que desconheço por completo os procedimentos usuais ou recomendáveis neste tipo de aprendizagem. Porém, intuitivamente, não sei se é produtivo, em determinado estádio de aprendizagem, trabalhar, explicitamente e em simultâneo, o conceito de sílaba e os casos em que, para translineação, se violam os limites da sílaba, constituindo excepções. Posso dizer apenas que enquanto professora do ensino secundário encontro muitas vezes, nos textos dos alunos, translineações mal feitas, por obedecerem à divisão silábica.
Poderá ser essa necessidade de não introduzir simultaneamente os dois conceitos a desencadear na professora a reacção que relata. Só por curiosidade, passei os olhos pela velha Gramática Portuguesa para o Ensino Primário, de Tomás de Barros, e devo dizer-lhe que não encontrei um único exemplo de divisão silábica que envolvesse as consoantes duplas que se separam para translineação.
Em qualquer dos casos, creio tratar-se de uma questão a resolver com a própria professora, que, por certo, conseguirá explicar-lhe a sua atitude e, quem sabe?, talvez o consulente, limada uma ou outra aresta, cuja origem poderá ser mesmo a falta de comunicação, venha a concordar, no essencial, com a atitude da professora.
Gostaria ainda de fazer referência ao atraso nas respostas do Ciberdúvidas que aponta. Todos os consultores desta página têm uma actividade profissional. As respostas que elaboram, as pesquisas que essas respostas implicam, são feitas nos seus tempos livres. Por isso, nem sempre conseguem responder mais atempadamente. Creio, no entanto, que falo em nome de todos ao garantir-lhe que cada um faz o seu melhor com muito prazer, por, desta forma, aprofundar diariamente a sua reflexão sobre a língua e por, eventualmente, motivar outras pessoas a reflectirem também, acerca das características de um património que é comum.

 

Edite Prada