DÚVIDAS

«Os que» (elipse) e «o que» (locução pronominal)

Depois de ter feito uma pesquisa no vosso site, gostaria de saber se estou a analisar corretamente, em termos oracionais e sintáticos, as seguintes frases complexas com a presença das expressões «o que» e «os que»:

1) «Estava calor, o que me transtornou.»

Oração subordinante: «Estava calor.»

Oração subordinada adjetiva relativa explicativa: «o que me transtornou», constituinte que exerce a função sintática de modificador apositivo da oração matriz.

Quanto à análise sintática da oração subordinada: «o que» é sujeito e «me» é complemento direto.

2) «Façam o que mandei.»

Oração subordinante: «Façam.»

Oração subordinada substantiva relativa sem antecedente: «o que mandei», constituinte que desempenha a função sintática de complemento direto.

Quanto à análise sintática da subordinada: «o que» é complemento direto do verbo mandar.

3) «Resolvam os que estão na página trinta» («Resolvam os [exercícios] que estão na página trinta»).

Oração subordinante: «Resolvam os [exercícios]»

Oração subordinada adjetiva relativa restritiva: «que estão na página trinta», constituinte que exerce a função sintática de modificador restritivo do nome [do nome exercícios].

Por seu turno, o constituinte «os que estão na página trinta» exerce a função sintática de complemento direto da matriz.

Quanto à análise sintática da subordinada: «que» é sujeito, e «na página trinta», predicativo do sujeito.

4) «Os exercícios para resolver são os que estão na página trinta»

Oração subordinante: «os exercícios são os»

Oração subordinada relativa restritiva: «para resolver», com a função de modificador restritivo do nome (ou será uma completiva com função de complemento do nome?).

Oração subordinada relativa restritiva: «que estão na página trinta», com a função de modificador restritivo do nome.

Por seu turno, o constituinte «os que estão na página trinta» exerce a função sintática de predicativo do sujeito.

Quanto à análise sintática da última oração subordinada: «que» é sujeito e «na página trinta» predicativo do sujeito

A minha dúvida nas frases 3 e 4 é se o predicativo do sujeito [«os que estão na página 30»] não constituirá como um todo uma oração substantiva relativa, sendo a subordinante apenas até ao verbo ser. Isto gera certa estranheza: se a partícula os fizer parte da subordinante (pois a subordinada restritiva inicia-se apenas com que) soa estranho a subordinante ser «Resolvam os».

Por outro lado, se «os que estão na página trinta» funcionar como substantiva relativa teríamos uma adjetiva restritiva («que estão na página trinta») encaixada na subordinada substantiva relativa, mas apenas com um verbo para as duas subordinadas («estão»), o que também parece estranho.

Peço por isso a vossa ajuda para resolver este dilema, pois sempre tive dificuldades em classificar orações com a presença de «os que» ou de «o que».

Votos de bom trabalho.

Resposta

Em primeiro lugar, importa realçar que, em Portugal, para o estudo da gramática nos ensinos básico e secundário, o quadro de referência é o do Dicionário Terminológico (DT). Há, no entanto, aspetos não abrangidos pelo DT que são esclarecidos por outras gramáticas, muitas de maneira nem sempre convergente.

Quanto às dúvidas do consulente, que se concentram nas frases 3 e 4:

– A análise da frase 3 está correta. É de notar que a construção relativa aí presente envolve uma elipse, ou seja, a omissão de material lexical: «Resolvam os [exercícios] que estão na página trinta.» Sendo assim, «os», que subentende «os exercícios», pode perfeitamente encontrar-se no domínio da oração principal, e não no da oração subordinada.

– Acerca da frase 4, a oração de infinitivo «para resolver» é, como bem diz o consulente, um modificador restritivo do nome. O DT é omisso acerca deste tipo de modificadores oracionais, que certos linguistas consideram constituir estruturas relativas, ainda que com aspetos semânticos próprios (ver Gramática do Português da Fundação Calouste Gulbenkian, p. 1104 e 2069/2070).

– Apenas «o que» é aceite como locução pronominal relativa. Esta ocorre nos seguintes contextos:

a) a introduzir uma oração subordinada adjetiva relativa apositiva cujo antecedente é uma oração, que no exemplo a seguir vai sublinhada: «fez várias acusações durante o discurso, o que muito chocou a audiência» (= o facto de ter feito acusações chocou a audiência);

b) a introduzir uma oração subordinada substantiva relativa, isto é, uma oração relativa de antecedente implícito: «Ignoro o que aconteceu» (neste caso, é sinónimo de «aquilo que» – ex.: «Ignoro aquilo que aconteceu»);

c) a introduzir uma oração relativa e tendo um antecedente quantificacional (cujos exemplos vão sublinhados nos exemplos que se seguem): «Tudo o que faz é admirável», «nada do que diz tem importância», «Como o dobro do que antes comia».

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