O significado e o aportuguesamento de kosher - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O significado e o aportuguesamento de kosher

Existe o aportuguesamento de kosher? [Trata-se de] termo referente à produção e preparação de alimentos segundo as leis judaicas.

Paulo de Sousa Gestor Cascais, Portugal 2K

Não tenho conhecimento de existir aportuguesamento estável de kosher, forma anglicizada de uma palavra iídiche relativa ao «que está de acordo com a lei judaica (sobretudo no âmbito alimentar)» (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa; ver também Dicionário Houaiss).1 Observo também que, como sinónimo de kosher, o Dicionário Houaiss regista kacher2, mas a presença do k torna esta grafia insatisfatória, dadas as restrições ao uso dessa letra na ortografia do português3. E ainda que supuséssemos como adequadas as adaptações gráficas "cóxer" ou "cócher"4, é kosher, em itálico, a forma que os dicionários acolhem.

As outras línguas românicas, pela sua afinidade com o português, poderiam dar algumas sugestões, mas, em relação a kosher, também elas se pautam por uma certa indecisão e alguma diversidade de resultados. Em espanhol, apesar da maior adequação de cócher, recomenda-se kósher por ser grafia mais usada (cf. comentário do Fundéu – Fundación del Español Urgente). Em galego, há quem escreva kóxer, mas nem esta nem outra formas aparecem sancionadas pelo dicionário da Real Academia Galega. Em catalão, atesta-se caixer (Diccionari de la Llingua Catalana do Institut d´Estudis Catalans), mais de acordo com a forma histórica hebraica (ver nota 1). Finalmente, em francês, verifica-se uma grande variação: kasher, casher, kacher, cacher, cawcher, câchère (informação da Wikipédia em francês, s. v. cacherout, com base no Petit Larousse, no Dictionnaire de l´Académie e do Trésor de la Langue Française Informatisé).

Em síntese, embora cóxer e cócher sejam aportuguesamentos possíveis, o certo é que a palavra, que por enquanto não parece muito popular em português, se usa na sua forma estrangeira.

1 O iídiche é a «língua germânica das comunidades judaicas da Europa central e oriental, baseada no alto-alemão do século XIV, com acréscimo de elementos hebraicos e eslavos» (Dicionário Houaiss). A forma kosher provém do hebraico kāshēr, «adequado, próprio».

2 Parece adaptação da forma hebraica mencionada na nota 1.

3 Com efeito, na Nota Explicativa (secção "Outras alterações de conteúdo", 1.º) do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90) pode ler-se o seguinte: «Apesar da inclusão no alfabeto das letras k, w e y, mantiveram-se, no entanto, as regras já fixadas anteriormente, quanto ao seu uso restritivo, pois existem outros grafemas com o mesmo valor fónico daqueles. Se, de facto, se abolisse o uso restritivo daquelas letras, introduzir-se-ia no sistema ortográfico do português mais um factor de perturbação, ou seja, a possibilidade se representar, indiscriminadamente, por aquelas letras fonemas que já são transcritos por outras..» As condições do uso de k, w e y estão definidas na Base I, 2.º e 3.º do AO 90.

4 O Dicionário Houaiss transcreve [´kɔʃɛɾ], com o aberto. Cóxer seria a forma mais adequada do ponto de vista histórico, porque, tradicionalmente, o som associado ao grafema sh corresponde é representado por x (baixo). O ch do português corresponde historicamente à consoante africada não vozeada [tʃ], que ainda se produz nalguns dialetos do português de Portugal (chave = "txave"). A confusão dos sons correspondentes aos grafemas x e ch (depois do século XVII) e a sua neutralização em [ʃ] (hoje, chave soa "xave") levaram a que ch também seja atualmente usado como transliteração de sh.

Carlos Rocha