Novo acordo, trema - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Novo acordo, trema

O Acordo Ortográfico, de forma muito incisiva ou visceral, diz suprimir "inteiramente" o trema das palavras em língua portuguesa. Observamos tom severo quando o Acordo estabelece: «O trema, sinal de diérese, é inteiramente suprimido em palavras portuguesas ou aportuguesadas. Nem sequer se emprega na poesia, mesmo que haja separação de duas vogais que normalmente formam ditongo: saudade, e não saüdade, ainda que tetrassílabo; saudar, e não saüdar, ainda que trissílabo; etc.» Quer dizer nem mesmo no campo da poesia, terreno fértil da escrita e reescrita critiva do texto, o trema é aceito. Todavia, quando chega aos nomes próprios, isto é, o respeito às propriedade privada, no contexto de dominação político-econômica, suaviza assim: «Conserva-se, no entanto, o trema, de acordo com a Base I, 3.º, em palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros: hübneriano, de Hübner, mülleriano, de Müller, etc.» (Base I, 3.º, do Acordo); ou mais adiante reafirma ainda: «Conserva-se, no entanto, o trema, de acordo com a Base I, 3.º, em palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros: hübneriano, de Hübner, mülleriano, de Müller, etc.» (Observação, Base XIV, do Acordo).

Não são dois pesos e duas medidas para um Acordo que se propõe a tratar os desiguais (falantes ) como sendo iguais (cultura lusófona)?

Vicente Martins Professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú Sobral, Ceará, Brasil 5K

Há muito tempo (desde 1945) que esta regra do novo AO é válida para Portugal, sem que tenhamos encontrado grandes problemas. Ser válido agora também para o Brasil enquadra-se no espírito de unidade na língua que se pretende com o novo AO. A perda do trema para o Brasil, nos poucos casos em que ainda se usava ou de outros sinais, é mínima, por exemplo, em relação à substancial perda das consoantes mudas que Portugal sacrifica à unidade, muito mais frequente num texto corrente.

Quanto à manutenção do trema em nomes próprios estrangeiros, os legisladores, que impunham a manutenção original da grafia (letras dobradas, etc.) não podiam, por uma questão de coerência isentar o trema dessa obrigação. Digamos que é uma excepção à regra. Ora de excepções estão as regras repletas; repare por exemplo no 2.º da Base X (7 excepções à regra geral… e ainda há mais…).

Ao seu dispor,

D´Silvas Filho