Ensinar o uso do mais-que-perfeito e do modo conjuntivo às crianças - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Ensinar o uso do mais-que-perfeito e do modo conjuntivo às crianças

Como ensinar crianças do 1.º e 2.º CEB [ciclo do ensino básico, em Portugal] as normas de orientação para a conjugação do mais-que-perfeito (em qualquer modo e tempo) e do modo conjuntivo em qualquer tempo? É suposto relacionar com a expressão que os pode anteceder como: «se eu...» ou «que eu...»?

Maria Clara Raposo Professora Coimbra, Portugal 7K

Embora o pretérito mais-que-perfeito do indicativo simples seja pouco usado, substituindo-se pelo pretérito mais-que-perfeito-composto, compreendemos que tenha de ser ensinado. Este tempo indica uma acção que ocorreu antes de outra já passada. Por se chamar pretérito, refere-se, naturalmente, ao passado.

A melhor forma de abordagem é:

1.º — Fazer ver aos meninos que, em qualquer língua, há só três referências, no que concerne à noção de tempo: passado, presente e futuro.

2.º — Referir que a palavra pretérito significa «passado».

3.º — Ajudar os meninos a reportar-se a alguns acontecimentos que já ocorreram.

4.º — Tentar sempre explicar as situações através de exemplos simples, em contextos que os meninos captem com facilidade.

Para este caso particular, por exemplo:

a) «Ontem, a professora explicou os tempos dos verbos durante muito tempo; o assunto tornara-se [pode substituir-se por «tinha-se tornado»] tão aborrecido, que alguns meninos adormeceram.»

— perguntar que acções se relatam neste exemplo e analisar que acção ocorreu primeiro e que acção ocorreu a seguir.

b) «No domingo passado, quando a minha avó chegou para me visitar, eu ainda não tinha acordado [a forma acordara raramente se usa em linguagem corrente].»

Referir que, na linguagem literária (histórias, contos, romances) é a forma simples deste tempo que se usa mais, para indicar um facto vagamente situado no passado («... a princesa fora abandonada e ficara caída no meio da floresta...»; no dia-a-dia, substituímos pelo pretérito imperfeito de ter + particípio passado do verbo que indica a acção que queremos referir (tinha-se tornado, tinha acordado).

Quanto ao pretérito mais-que-perfeito do conjuntivo, a sua formação é semelhante à do mais-que-perfeito composto do indicativo, com a diferença de o auxiliar ter se conjugar no pretérito imperfeito do conjuntivo (tivesse-se tornado, tivesse acordado).

Em relação ao modo conjuntivo, deve, logo de início, estabelecer um confronto entre indicativo e conjuntivo e o que é que cada um deles pretende comunicar ou referir.

Muito linearmente, poderemos dizer que o indicativo é o modo do real, da certeza, e que o conjuntivo é o modo da dúvida, da incerteza, do desejo e da proibição.

Pode pedir-se aos meninos que completem frases simples, iniciando com «talvez», «quem me dera», «proíbo-te que...», etc., para que eles naturalmente usem as formas de conjuntivo.

Em qualquer dos casos, parece-nos que a melhor "fórmula" é dar exemplos simples, praticar casos semelhantes com todos os meninos e ajudá-los a compreender a noção de "tempo" — passado, presente, futuro — e a perceber que os verbos, nas suas variadas formas, nos indicam acções que nós podemos realizar. Também é muito útil usar frases de condição («se...», «caso...», etc.), pois também ajudam a praticar tempos do conjuntivo e, consequentemente, a compreender melhor a sua utilização. 

Insistimos que a melhor fórmula é: praticar muito.
Carlos Rocha