As regras de acentuação (II) - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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As regras de acentuação (II)

Antes de mais, agradeço a resposta à minha pergunta e deixo os meus sinceros parabéns ao Ciberdúvidas pelo seu excelente trabalho.
Ficou-me, porém, uma dúvida a respeito das regras de acentuação: a regra em que me baseei para me referir à acentuação gráfica das homógrafas surge na gramática de C. Cunha e L. Cintra (é a 12.ª), bem como no prontuário de M. Bergstrom e N. Reis. Essa regra, de acordo com a resposta do Ciberdúvidas à minha pergunta sobre a acentuação gráfica da palavra “cor”, não tem qualquer validade nem lógica. Quer isto dizer que as obras citadas não são de confiança?

Sara Leite Portugal 6K

Começo por lhe agradecer as suas gentis palavras. É o amor à nossa língua que nos une a todos e nos entusiasma no seu estudo.

Quanto à sua dúvida sobre as obras que consultou, sublinho:
A Nova Gramática do Português Contemporâneo regista nessa tal alínea 12.ª: «Recebem acento agudo os seguintes vocábulos que estão em homografia com outros:» Ora repare que esta gramática não diz, nem deixa a ideia de que a regra se possa aplicar a *`todos os homógrafos´. E, se reparar melhor, alguns dos termos indicados são justamente os das exclusões que estudámos. Acentuar pólo ou amámos (em Portugal) contraria a regra de que as paroxítonas (NT graves) não são normalmente acentuadas quando terminam em a, e, o, seguidas ou não de s; por isso os acentos nestas palavras são exceções. Por outro lado, no conjunto dessas alíneas da citada gramática, não encontrei a regra sobre a não acentuação das homógrafas heterofónicas (ex.: molho ¦ô¦ [calda] e molho ¦ó¦ [feixe]; mas esta regra é objecto da Base XXII das nossas normas, como já referi.

Quanto à outra obra que cita, e como sou autor também dum prontuário, não me parece eticamente correcto fazer apreciações pessoais. Deixo-lhe a si a análise do texto que menciona, à luz do que acima escrevi.

Concluo lembrando que não se pode de ânimo leve referir normas na nossa língua. É preciso meditar sempre bem na sua aplicação ao caso concreto; não só porque frequentemente as exclusões desaconselham que se deixe a ideia de generalidade, mas também porque a versatilidade da língua recomenda prudência em afirmações taxativas. Costumo citar o seguinte exemplo quanto a este cuidado: Devemos escrever `pão mole´ (NA) e não `mole pão´, porque a ordem canónica em português é nome, adjectivo; porém é a mesma coisa sempre? `um marido novo´ é a mesma coisa que `um novo marido´ (AN)?


Ao seu dispor,

D´Silvas Filho