DÚVIDAS

Ainda a querela Úrano "vs." Urano

Referindo-me à resposta Afinal é Úrano ou Urano?, permitam-me que apresente as minhas dúvidas com base no seguinte:

O termo Urano (ou Úrano)designava inicialmente o deus mitológico e só muito depois foi adoptado para designar também o planeta, tal como sucedeu com os outros deuses e planetas: Vénus, Mercúrio, Marte, Júpiter, Saturno,Neptuno e Plutão. Nestes casos os nomes identificam tanto os planetas como os deuses que lhes deram os seus nomes, o que seguramente é o caso também de Urano (ou Úrano).

Sendo assim, não me parecem justificadas duas grafias diferentes, uma para o deus e outra para o planeta, pois que se trata de um único e mesmo nome com duas designações.

Quanto à grafia única adoptável, defendo que deva ser Urano, pela facilidade de pronúncia e pelo uso com que pessoalmente me defronto, como certamente muitos outros, desde os meus tempos de liceu e está reconhecida em dicionários e o próprio Rebelo Gonçalves já admitia ser corrente, embora recomendasse Úrano.

Não será este mais um caso do purismo etimológico de RG e seguidores, sobrepondo-se ao uso e à evolução natural da língua?

Agradecido pela atenção e por uma eventual réplica se entenderem que é devida.

Resposta

Lastimo dizer-lhe que não estou inteiramente de acordo com tudo o que escreveu.

Comecemos pela sua apreciação de que Rebelo Gonçalves terá seguido um purismo ideológico.

A palavra purista costuma ser pejorativa, no sentido de que é normalmente aplicada a pessoa antiquada no seu apego ferrenho a formas etimológicas ultrapassadas. Ora eu não considero RG um purista ferrenho, mas simplesmente um vernaculista. Lembro que RG reconheceu muitas vezes que o uso estava a fazer lei. Além de Urano, lembra-me agora de /azímute/ e /azimute/. Ora são os vernaculistas que ajudam a conservar a história das palavras.

Estou de acordo que a língua não pode ser estática e que tem de ir variando com as necessidades dos falantes; mas uma excessiva abertura pode conduzir a atropelos que escandalizam as pessoas extremosas. Cito, por exemplo, presentemente, a aceitação como palavras portuguesas de “toilete” pronunciada ¦tuá¦; “aparthotel” com h interior; ou a ressurreição dos mamarrachos “maple”, nome de marca, ou de “chofer” do primitivo “chauffer” (aquecer), etc., etc.

Os impressionantes pensadores da Antiguidade já diziam que é no meio-termo que está a virtude. Eu digo: a aplicação da língua deve fazer se com inovação, mas também com prudência e sensatez. Não esqueçamos nunca o que o saudoso Carreira Bom escreveu. Para mim, serão sempre preciosos os abnegados vernaculistas que se disponham a manter as `margens´, na pressão agora caudalosa do rio.

Quanto à sua exigência de uniformizar os termos em Urano, isso não me parece indispensável. Lembro, por exemplo, que se aceita jovem do lat. `juvene-´ e juventude do lat. `juventute-´, e não se exige que se escreva *juvem ou *joventude. Assim, não obstante as suas ponderosas observações, continuarei a recomendar a designação Úrano para o deus mitológico (Houaiss-port.e.).

De acordo com o que escrevi na resposta, indo ao encontro da sua ideia e contrariando em parte RG, passarei a aceitar que entrou na língua a grafia Urano para o planeta, como alternativa a Úrano (variantes já também no Porto Editora 2003).

Cumpre-me, de qualquer forma, agradecer o favor de nos ter escrito.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa