Ainda a etimologia de «eis»
Começo por agradecer a resposta de F. V. Peixoto da Fonseca à minha pergunta anterior sobre a etimologia de «eis». Perguntei por que motivo «eis» não teria por étimo o latim «ecce». F. V. Peixoto da Fonseca respondeu que «Ecce nunca poderia dar eis em português, pois as regras da nossa fonética histórica não o permitiriam.»
Penso que compreendi a resposta de F. V. Peixoto da Fonseca. Ouso, ainda assim, pedir um esclarecimento. A que «regra» ou «regras» se refere F. V. Peixoto da Fonseca? A que pronúncia do latim «ecce» se reporta F. V. Peixoto da Fonseca para a sua conclusão? Dada a proximidade semântica, por que motivo não poderia a transformação fonética de «ecce» em «eis» ser considerada uma «excepção»?
Sem querer abusar dos colaboradores do Ciberdúvidas, cujo trabalho gratuito e desinteressado só pode ser enaltecido, deixo ainda os seguintes aspectos à sua consideração:
O «c» latino, quando sucedido por «i» ou «e», deu em português (como noutras línguas novilatinas) o som |s|. Assim, «ecce» pode ter tido, a certo ponto, a pronúncia |éksè|. Esta pronúncia é próxima da de «ex» (faltaria só uma simples apócope), que J. P. Machado e o «Dicionário da Academia» entendem ter dado «eis». Ora, se «ex» pode, por que não «ecce»? [Quanto à grafia «por que», cf. Peres, João Andrade / Móia, Telmo – «Áreas críticas da língua portuguesa», Caminho, Lisboa, 1995, pp. 340 e ss.]
O «c» inicial das consoantes duplas latinas originou frequentemente em português a semivogal «i». Assim, «noctem» deu «noite», «octo», «oito», etc.
Em «ecce», lá está uma consoante dupla. Por que não havia de surgir daí um «i»?
Tomemos como exemplo as palavras latinas começadas por «exce-». «Excelsum» (no acusativo) deu «excelso», pronunciado «eiscelso» no português padrão.
Ora, em certo momento da evolução do latim (digamos, no latim clássico, do tempo de Cícero), «excelsum» terá sido pronunciado |èkskélsum|. Às tantas, terá passado a |èksélsum|. Ora este |èksé| não é nada improvável para certo momento de «ecce». Logo...
Ainda hoje, em certa «pronúncia eclesiástica» (por assim dizer) do latim, «ecce» é lido |ékchè|. Não poderia daí ter resultado «eis»?
Não no «Dicionário Etimológico», mas no «Grande Dicionário da Língua Portuguesa», J. P. Machado indica «ecce» como étimo de «eis». Por que motivo terá o autor pensado nisso?
Agradeço antecipadamente a resposta do Ciberdúvidas, bem como, em geral, o trabalho dos colaboradores do Ciberdúvidas. Não tomem a minha insistência por discordância ou, muito menos, por falta de consideração. É uma dúvida sincera.
