Acerca do som semivocálico da letra l - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Acerca do som semivocálico da letra l

Se a letra l em fim de sílaba representa som semivocálico, por que alguns analisam a palavra caldo como não tendo ditongo? Deus do céu, quem é que não acha que em cal o l não tem som semivocálico se o som é i-dên-ti-co ao u de mau?!

Ajudem-me a entender!

José Vasconcelos Estudante Rio de Janeiro, Brasil 7K

Do ponto de vista fonético, tal como o consulente sugere, as semivogais (ou glides), [j] e [w], «constituem com as vogais que as antecedem ditongos crescentes» (Maria Helena Mira Mateus e outros, Gramática da Língua Portuguesa, 2003, p. 993).

É verdade também o que diz o consulente no que diz respeito à pronúncia do l velar no português do Brasil, em sintonia com as conclusões de Paul Teyssier (História da Língua Portuguesa, São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 67):

«Na pronúncia mais comum, o [ł] velar, que é, em Portugal, a realização de todos os ł em final de sílaba, vocaliza-se em [w]. Escreve-se animal, Brasil, amável, sol e pronuncia-se [animąw], [brasiw], [amávęw], [sɔw]. A distinção entre mal (advérbio) e mau (adjetivo) desaparece.».

Porém, o referido autor acrescenta a esta constatação várias notas importantes, salientando que «somente o extremo sul do país [Brasil] mantém regularmente a antiga distinção [a mesma verificada actualmente no português europeu]»,1 que «em registros muito vulgares dá-se até o desaparecimento puro e simples do antigo l em posição final absoluta: ex.: generá (general), coroné (coronel)» e, finalmente, que «quando fecha sílabas internas, documenta-se, nos mesmos registros, a sua passagem a r; ex.: arto (alto), vorta (volta)».

1 Na linha, aliás, do que é referido por Cunha e Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, p. 31.

Pedro Mateus
Tema: Uso e norma
Campos Linguísticos: Pronúncia; Fenómenos fonéticos