Maria Regina Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
 
Textos publicados pela autora

Artigo de Maria Regina Rocha, na sua coluna "A vez... ao Português" do "Diário do Alentejo" de  23 de Janeiro de 2009, sobre a ancestralidades de seis palavras à primeira vista tão diferentes.

Pergunta:

Estou estudando para concursos públicos e, ao estudar Direito Administrativo, a respeito do assunto Teoria dos Motivos Determinantes, deparei-me com a seguinte oração em uma questão de simulado enviada por colegas:

«Ocorre a aplicação da teoria dos motivos determinantes, quando o administrador declina os motivos que levaram à prática do ato administrativo, vinculando, dessa forma, os motivos à efetiva existência fática dos mesmos.»

Busquei no meu Aurélio de bolso a definição do verbo declinar e encontrei:

«Recusar, baixar, desviar-se do rumo, descer, descair, enunciar as flexões (de nomes e pronomes)» e surgiu a dúvida: Será que o uso nesta frase está correto?

Não, seguramente, como sinônimo de «declarar, mencionar, expressar», que é como se encaixaria na oração.

Possuo um livro que usa o verbo declarar em frase muito semelhante:

«Segundo a Teoria dos Motivos Determinantes, quando a Administração declara o motivo que determinou a prática de um ato discricionário que, em princípio, prescindiria de motivação expressa, fica vinculada à existência do motivo por ela, Administração, declarado.»

(Direito Administrativo Descomplicado).

Esta oração com o verbo declinar é muito comum na web — Achei várias entradas no Google, por isso surgiu a dúvida. Será que estou enganada, ou é possível que um erro de digitação ou ortografia tenha se espalhado mesmo na Internet?

Antecipadamente agradeço pelo esclarecimento.

Resposta:

Na linguagem jurídica brasileira, a expressão «declinar os motivos» significa «enunciar os motivos». Tal acepção está registada no Dicionário Novo Aurélio Século XXI: 15. e 23. enunciar ou revelar, nomear. Esta palavra também é usada em contexto gramatical com o significado de «enunciar as flexões de nomes, pronomes ou adjectivos»: repare-se que a palavra declinar é da mesma família de declinações (em latim, em grego ou em alemão, por exemplo), ou seja, a enunciação de todos os casos de uma palavra.

Assim, na frase apresentada, o termo declinar significa, sim, «enunciar, declarar».

A finalizar, transcrevem-se excertos de dois textos sobre o assunto em causa, para uma melhor compreensão do mesmo.

1. Aqui, pode ler-se a passagem que se segue, da autoria do prof. Alírio de Oliveira Ramos, do Curso de Administração da Faculdade Unicerto:

«A motivação dos atos administrativos vem se impondo dia a dia, como uma exigência do Direito Público e da legalidade governamental. Pela motivação, o administrador público justifica sua ação administrativa, indicando os fatos (pressupostos de fato) que ensejam o ato e os preceitos jurídicos (pressupostos de direito) que autorizam sua prática. A Teoria dos Motivos Determinantes funda-se na consideração de que os atos administrativos, quando tiverem sua prática motivada, ficam vinculados aos motivos expostos, para todos os efeitos jurídicos.»

2. Na edição n.º 2 de 2003 – Ano XXI, da Revista do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, num artigo de Emerson Garcia intitulado «A moralidade administrativa e sua densificação», capítulo 6.4., pode ler-s...

Uma viagem à volta dos meses anos  neste artigo da professora Maria Regina Rocha na sua coluna "A vez… ao Português", no Diário do Alentejo de 9/01/ 2009.

 

 

Pergunta:

Ao escrever uma simples carta e ao “correr da pena” escrevi: «Na sequência da v/ carta de 20-11-08 que anexava o cheque desconto de 30,00 €, tomo a liberdade de vo-lo remeter, visando…»

É correcto o emprego de vo-lo, ou deve ser substituído por «tomo a liberdade de o remeter…» ?

Solicito o favor dos vossos esclarecimentos.

Resposta:

Tanto está certa a construção «tomo a liberdade de o remeter» como «tomo a liberdade de vo-lo remeter».

No primeiro caso, o emissor diz apenas que toma a liberdade de remeter o cheque, utilizando o pronome o para substituir a palavra cheque.

No segundo caso, o emissor diz que toma a liberdade de remeter o cheque (utilizando o pronome o) e refere a quem o remete (uma segunda pessoa, a quem trata por vós). Ao utilizar os dois pronomes forma de complemento (complemento dire{#c|}to, o, e complemento indire{#c|}to, vos), o complemento indire{#c|}to precede o dire{#c|}to, como é norma, utilizando-se a forma lo e suprimindo-se o s final de vos: vos + o –> vo-lo.

Exemplos:

(1) «Tenho o prazer de oferecer este livro ao meu aluno» = «Tenho o prazer de lho oferecer»

(2) «Tenho o prazer de vos oferecer este livro» = «Tenho o prazer de vo-lo oferecer»

(3) «Tomo a liberdade de vos enviar o livro» = «Tomo a liberdade de vo-lo enviar»

(4) «Tomo a liberdade de vos pedir uma opinião» = «Tomo a liberdade de vo-la pedir»

À volta do Natal

A origem da palavra Natal. E porque se designa missa do galo à celebração católica da passagem de 24 para 25 de Dezembro? Finalmente: são os pais natal ou os pais natais? Artigo de Maria Regina Rocha no Diário do Alentejo de 26 de Dezembro de 2008.