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Manuel Alegre
Manuel Alegre
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Manuel Alegre, natural de Águeda, onde nasceu em 1936, estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde foi dirigente estudantil. Até 2 de Maio de 1974, viveu em Paris e mais tarde em Argel, onde foi locutor da emissora Voz da Liberdade. Conhecido pela atividade política, tem-se dedicado também à produção literária, com incidência particular na poesia. Em 1999, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa.

 
Artigos publicados pelo autor


Até que a escrita trema
e então do fundo da memória um corpo e o mar
um cheiro de alfazema e de salgema
um acento circunflexo um til um trema
um nome que noutro nome se dizia
um erro no ditado umas letras redondas
uma rosa por dentro da caligrafia
a praia um rosto as ondas.

 

Foz do Arelho, agosto de 2003

«Língua de viagem e de mestiçagem», «Rio de muitos rios. E talvez pátria de várias pátrias», «O português de múltiplas tiranias/e o português das várias resistências.», «A língua é a mesma. Mas não é a mesma./É una. Mas é diversa» são versos de Manuel Alegre dum poema de elogio da língua portuguesa, poema este que foi tema da comunicação apresentada no Programa Cultural da Expolíngua, em Madrid, em março de 2003.

 

[...] Mas a poesia é também a língua. A música secreta da língua. Na língua portuguesa essa música é um marulhar contínuo. «Há só mar no meu país» — escreveu o poeta Afonso Duarte. E um poeta angolano falou da língua portuguesa como língua de viagem e mestiçagem. E eu acrescento: rio de muitos rios. E também pátria de várias pátrias. A língua é una. Mas é diversa. Tanto mais ela quanto mais diferente. Tanto mais pura quanto mais impura.



Desterro desconcerto desatino

vai-se a vida em palavras transmudada

vai-se a vida e cantar é um destino

página a página de pena e espada.


Conjura desengano má fortuna

oxalá só vocábulos não

a escrita não se cinde a vida é una

cantar é sem perdão é sem perdão.


Quebrar a regra nenhum verso é livre

outra é a norma e a frase nunca dita

lá onde de dizer-se é que se vive.


Cortando vão as naus a curta vida

transforma-se o que escreve em sua escrita

Lusíada é a palavra prometida.






Por baixo da superfície
lisa de cada palavra
por dentro da fenda sísmica
da gramática onde fulgura
o magma (sintaxe mágica)
de Babilónia a Sião.

Entre o étimo e o sintagma
no avesso desse centro
onde há uma estrela caída
para dentro do oculto
relação irrevelada
entre o corpo e a palavra.

Onde o invisível tremor
da terra percorre o sangue
e então de súbito a flauta
onde só Camões é quem
sobre esses rios que vão 
entre ninguém e ninguém.