Jorge de Sena - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Jorge de Sena
Jorge de Sena
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Jorge de Sena (Lisboa, 1919 — Santa Bárbara, 1978) foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português, naturalizado brasileiro onde  viveu  alguns anos antes de se mudar para os EUA. Com vasta e muiltímoda obra pubicada,  o seu livro ficção mais famoso é o romance autobiográfico Sinais de Fogo. Cf. A evolução de plafom, o cinema no Cuidado com a Língua!,a invasão linguística da Web Summit e os alertas de Jorge de Sena + O Século de um Intelectual Indispensável.

 
Textos publicados pelo autor


Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos, 
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vo...


Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
qua...

A língua como definidora de identidade portuguesa  neste poema  de Jorge de Sena, transcrito na  antologia Poesia-III, Moraes Editores, Lisboa. 


Estão podres as palavras — de passarem
por sórdidas mentiras de canalhas
que as usam ao revés como o carácter deles.
E podres de sonâmbulos os povos
ante a maldade à solta de que vivem
a paz quotidiana da injustiça.
Usá-las puras — como serão puras,
se caem no silêncio em que os mais puros
não sabem já onde a limpeza acaba
e a corrupção começa? Como serão puras
se logo a infâmia as cobre de seu cuspo?
Estão podres: e com elas apodrece o mundo
e se ...