Eunice Marta - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Eunice Marta
Eunice Marta
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Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e mestre (Mestrado Interdisciplinar em Estudos Portugueses) pela Universidade Aberta. Professora de Português e de Francês. Coautora do Programa de Literaturas de Língua Portuguesa, para o 12.º ano de escolaridade em Portugal. Ex-consultora do Ciberdúvidas e, atualmente, docente do Instituto Piaget de Benguela, em Angola.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Como fazer a divisão silábica da palavra Lisboa?

Resposta:

O nome próprio Lisboa tem três sílabas que se dividem da seguinte forma: Lis-bo-a.

No entanto, se se pretender fazer a translineação da palavra, não deveremos separar a última sílaba na mudança de linha (-a), porque «não se deve escrever no princípio ou no fim da linha uma só vogal», de modo a evitar-se a partição de palavras com essa particularidade. Por isso, para a translineação, aconselha-se que se faça a divisão do seguinte modo: 

Lis-

boa

Pergunta:

Como se efetua diferentes translineações da palavra aprumadinho?

Resposta:

Embora esteja intimamente relacionada com a divisão silábica, a translineação obedece, também, a regras específicas devido à partição das palavras na situação de mudança de linha.

Por isso, apesar de esta palavra ter cinco sílabas (a-pru-ma-di-nho), sempre que se faz a translineação, não se deve isolar uma vogal1. Portanto, não se deve separar a primeira sílaba (a-) da segunda (-pru-), razão pela qual são possíveis as seguintes translineações:

1) apru-
madinho

2) apruma-
dinho

3) aprumadi-
nho2.

1 Sobre este caso, os gramáticos Cunha e Cintra indicam-nos que «não se deve escrever no princípio ou no fim da linha uma só vogal. Evite-se, por conseguinte, a partição de vocábulos como água, , aqui, baú, rua, etc.» (Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Sá da Costa, 2001, p. 69).

2 Tal como sucede na divisão silábica, não se separam «os encontros consonantais que iniciam sílaba e os dígrafos ch, lh e nh» (idem, p. 68), o que é previsto também no ponto 1 da Base XX do Acordo Ortográfico de 1990: «São indivisíveis no interior de palavra, tal como inicialmente, e formam, portanto, sílaba para a frente as sucessões de duas consoantes que constituem perfeitos grupos.»

Pergunta:

Gostaria de saber como se faz a escansão (sílabas métricas) dos seguintes versos de Os Lusíadas:

«A Fé, o Império, e as terras viciosas» (2.ª estrofe do 1.º canto)

«Vê-o também no meio do Hemisfério» (8.ª estrofe do 1.º canto).

Resposta:

A escansão (ou divisão métrica) dos versos, como sabemos, difere da divisão silábica, uma vez que a realidade poética se distingue pelo efeito/valorização da melodia e do ritmo. Portanto, e tendo como referência o Tratado de Versificação Portuguesa, de Amorim de Carvalho, «na contagem das sílabas [contagem essa que se refere à medição musical do verso, ou metro (como também é designado)] fundem-se estas conforme a pronúncia corrente (o que constitui a sinalefa), de modo que só se contam as emissões de voz individualmente bem distintas, e cada emissão chama-se sílaba métrica ou prosódica» (Amorim de Carvalho, Tratado de Versificação Portuguesa, 5.ª ed., Lisboa, Universitária Editora, 1987, pp. 15-16).

Por isso, nos versos de Os Lusíadas apresentados, há três casos de fusão de sílabas, em que se verifica «a contração numa sílaba de duas ou mais vogais em contacto» (Celso Cunha e Lindley Cinta, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 17.ª ed., Lisboa, Sá da Costa, 2002, p. 667) — «o Im/pé/rio, e as/te/rras» e «do He/mis/fé(rio) —, o que leva a que a contagem dessas sílabas respeite as ligações das palavras. Assim sendo, o que em prosa corresponderia a 2 sílabas em «o - Im(pério)» e «do - He(misfério)» e a 4 sílabas em «(Impé)ri-o - e -as» tem, na divisão métrica, o valor de 1 sílaba, respetivamente.

Para além desta especificidade, não podemos esquecer-nos, também, de que, «metricamente, a contagem das sílabas métricas apenas se faz até ao último acento tónico, inclusive» (Amorim de Carvalho, ob. cit., p. 16), razão pela qual se colocam entre parêntesis a(s) sílaba(s) que se lhe(s) segue(m), significando as sílabas não contadas. É esse o caso dos dois versos...

Pergunta:

A palavra matemática é aguda?

A palavra brincar é esdrúxula?

A palavra razão é esdrúxula?

Resposta:

A classificação das palavras quanto à acentuação faz-se pela identificação da sílaba tónica e da sua posição silábica — no final (última sílaba), no interior (pela penúltima ou antepenúltima sílaba) e no início da palavra, razão pela qual, «quanto ao acento, as palavras de mais de uma sílaba se classificam em oxítonas ou agudas, paroxítonas ou graves e proparoxitonas ou esdrúxulas» (Cunha e Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Sá da Costa, 2001, p. 56).

Assim, matemática (ma-te--ti-ca, cuja sílaba tónica é ) é uma palavra esdrúxula (ou proparoxítona), uma vez que o acento tónico recai na antepenúltima sílaba.

Por sua vez, brincar (brin-car) e razão (ra-zão) são palavras agudas (ou oxítonas), porque o acento tónico recai na última sílaba.

Pergunta:

Queria saber se na seguinte frase podemos, de facto, usar a forma contraída dum ou se temos de usar a expressão de um: «Preciso dum favor teu.»

Resposta:

Tal como é correto dizer-se/escrever-se «Preciso disto e daquilo», «Preciso deste favor», «Preciso da tua ajuda», «Preciso do teu conselho», também é possível a estrutura «Preciso dum favor teu», em que se faz a contração da preposição com os pronomes e determinantes (demonstrativos, possessivos, artigos definidos e indefinidos).

Esse tipo de contração é aconselhável na maioria das situações, exceptuando-se os casos em que a preposição «está relacionada com o verbo, e não com o substantivo que o artigo/determinante introduz» (Cunha e Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Sá da Costa, 2002, p. 211), ou seja, quando introduz uma construção de infinitivo. Por exemplo:

«A obra atrasou-se em virtude de uns operários se terem acidentado.»