Eunice Marta - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Eunice Marta
Eunice Marta
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Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e mestre (Mestrado Interdisciplinar em Estudos Portugueses) pela Universidade Aberta. Professora de Português e de Francês. Coautora do Programa de Literaturas de Língua Portuguesa, para o 12.º ano de escolaridade em Portugal. Ex-consultora do Ciberdúvidas e, atualmente, docente do Instituto Piaget de Benguela, em Angola.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Como classifico o sujeito de uma frase quando este é um verbo, como, por exemplo, «Errar é humano»? É sujeito simples, ou nulo?

Resposta:

De facto, a frase «Errar é humano» é um caso de uma «oração complexa contendo uma oração infinita [Errar] como sujeito» (Mira Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa, Caminho, 2003, p. 825). Trata-se, portanto, de uma ocorrência em que o sujeito é uma oração reduzida de infinitivo (terminologia usada por Celso Cunha e Lindley Cintra, na sua Nova Gramática do Português Contemporâneo, p. 607).

Ora, se tivermos em conta o que nos diz o Dicionário Terminológico sobre os tipos de sujeito, apercebemo-nos de que, em relação a «Errar», enquanto oração, se trata de um sujeito simples, pois é definido como «sujeito constituído exclusivamente por um grupo nominal ou por uma oração.

Nota: Já a gramática tradicional (Cunha e Cintra, ob. cit., p. 127) classificava esse sujeito oracional como sujeito simples, baseando-se na particularidade de o mesmo ter «um só núcleo, isto é, quando o verbo se refere a um só substantivo/nome (i), ou a um só pronome (ii), ou a um só numeral (iii), ou a uma só palavra substantivada (iv), ou a uma só oração substantiva (v):

(i) Matilde entendia isso.

     Os olhos estavam secos.

(ii) Ele arrumava as gavetas, ela ajeitava o chapéu.

      Isto não lhe arrefece o ânimo?

      Quem disse isso?

      Tudo parara ao redor de nós.

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Pergunta:

Qual dessas duas frases está correta?

«Não gosto do jeito dele falar.»

«Não gosto do jeito de ele falar.»

Grata.

Resposta:

«Não gosto do jeito de ele falar» é a frase correta, pois não se deve fazer a contração/crase da preposição de com o pronome pessoal (assim como com  artigos ou determinantes) nos casos em que a preposição introduz uma construção de infinitivo.

Nota: Uma outra forma correta da frase é «Não gosto do seu jeito de falar», optando-se pelo emprego do determinante possessivo seu (o que implica a não realização lexical do sujeito — o pronome pessoal ele — da oração infinitiva «de ele falar»).

Pergunta:

A propósito da resposta sobre o valor da expressão «uma vez que» (assim como do de «uma vez»), gostaria de saber a classificação morfológica da expressão «uma vez» na frase «Uma vez deferido o processo, resolvo a situação», uma vez que a dita expressão pode ser suprimida sem afetar o entendimento: «Deferido o processo...»

Resposta:

De facto, se suprimirmos a expressão «uma vez» da frase «Uma vez deferido o processo», o sentido do enunciado parece não sofrer alterações. No entanto, pela presença dessa expressão introdutória, depreende-se que a frase «Uma vez deferido o processo» não é uma frase isolada. Ela faz, decerto, parte de um texto/discurso (mesmo que breve) que envolve um determinado processo (judicial, financeiro, académico, etc.) cujo deferimento é determinante, o que implica uma sequência textual.

Ora, a coesão (assim como a coerência) do texto é assegurada pelas expressões/formas linguísticas que determinam as relações lógicas entre as situações, expressões/formas linguísticas estas que são «processos de sequencialização que exprimem vários tipos de dependência semântica das frases que ocorrem na superfície textual» (Mira Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa, Caminho, 2003, p. 91). Por isso, «todos os processos de sequencialização que asseguram (ou tornam recuperável) uma ligação linguística significativa entre os elementos que ocorrem na superfície textual podem ser encarados como instrumentos de coesão» (idem, p. 89). Trata-se, portanto, de processos de conexão interfrásica.

É essa a razão pela qual se designam tais expressões/formas linguísticas — que contribuem para a coesão e a coerência de um texto — como articuladores do discurso ou conetores discursivos, que, segundo o Dicionário Terminológico, «são uma classe de marcadores discursivos, que ligam um enunciado a outro enunciado ou uma sequência de enunciados a outra sequência, estabelecendo uma relação semântica e pragmática entre os membros da cadeia discursiva, tanto...

Pergunta:

Gostaria de saber o significado dos seguintes provérbios:

«Ano de ameixas, ano de queixas.»

«A campo fraco, lavrador forte.»

«Mais vale lavrar o nosso ao longe que o alheio perto.»

«A boa fazenda nunca fica por vender.»

«Cada um colhe segundo semeia.»

Resposta:

Embora estes provérbios se encontrem nas listas de alguma da bibliografia consultada1, não encontrámos nenhum registo sobre a origem e/ou o significado de cada um deles. Por isso, importa alertar para o facto de que a interpretação que aqui fazemos é fruto da análise de cada uma das frases, tendo como referência a realidade subjacente à construção dos provérbios.

Nos seis provérbios transparece a experiência vivida pelas pessoas cuja vida gira(va) à roda do universo agrícola, vivência que lhes conferiu saberes que foram transmitidos através das gerações. Reflexo da filosofia e da sabedoria popular que concentra em poucas palavras, em frases curtas e assertivas, os conselhos e as lições sobre a relação entre tempo/condições atmosféricas — plantações e colheitas, a natureza do campo — atitude do lavrador, o produto/fruto — o lavrador, realidades rurais em que a economia e a prudência sobressaem como valores imprescindíveis.

Relativamente a cada um dos provérbios:

Da leitura de vários provérbios, apercebemo-nos de que, na grande maioria deles, as condições atmosféricas (chuva, vento, neve, nevoeiro, sol, calor) e os produtos (frutos, legumes, cereais) definem um bom ou mau ano.

Em «ano de ameixas, ano de queixas», sobressai a mensagem de que um ano de abundância de ameixas corresponde a um ano de dificuldades, de preocupações, de falta de outros bens/produtos. Portanto, esse desequilíbrio deve estar relacionado com um ano de seca ou de excesso de chuva, condições atmosféricas prejudiciais/adversas a um bom ano agrícola2.

Por sua vez, os restantes provérbios assentam na importância da relação de interdependência entre o lavrador e o campo, pois um determina o outro. Assim:

«A campo fraco, lavrador f...

Pergunta:

Gostaria de saber se ambas as sentenças que se seguem — «o João pediu para eu fazer» ou «o João pediu para mim fazer» — estão corretas.

Resposta:

«O João pediu para eu fazer», em que se usa o pronome pessoal eu como sujeito da oração subordinada completiva não finita1 «para eu fazer», é a forma que respeita a norma.

Sobre isso, importa lembrar que as regras da representação do sujeito evidenciam que «os sujeitos de 1.ª e de 2.ª pessoa são, respetivamente, os pronomes eu e tu, no singular» (Cunha e Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Sá da Costa, 2001, p. 125). No entanto, Celso e Cunha alertam-nos, em observação, para o emprego, no Brasil, do pronome mim como sujeito. Esta situação, não aceite pela norma culta, deve-se à ocorrência «do cruzamento de duas construções perfeitamente corretas — "Isto não é trabalho para eu fazer" e "Isto não é trabalho para mim" — a partir da qual surgiu uma terceira — "Isto não é trabalho para mim fazer" — em que o sujeito do verbo assume a forma oblíqua mim» (idem, p. 300). Assinalam, também, que «a construção parece ser desconhecida em Portugal, mas no Brasil ela está muito generalizada em língua familiar, apesar do sistemático combate que lhe movem os gramáticos e os professores do idioma» (idem).

1 Trata-se de uma frase em que o verbo pedir — que, neste caso, é um verbo declarativo de ordem, segundo Inês Duarte (Mira Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa, Caminho, 2003, p. 621) — seleciona uma oração completiva não finita introduzida por para — oração esta que é um caso de completiva com a relação gramatical de complemento direto.