O Céu Cairá sobre Nós
30 Crónicas e 1 Discurso
«As palavras ensinaram-me a ver. O grande armazém do ver é feito de palavras. Sou levado a pensar que quem tem mais palavras vê mais. (…)
De resto, o milagre da evolução gerou as palavras para que o homem possa narrar, para que na sucessão das gerações não se perca o património das experiências vividas. Que seria do homem sem as palavras?»
(Lamberto Maffei, Elogio da Palavra)
Há palavras que além de nos ensinarem a ver, semeiam centelhas de lucidez em tempos de insana alienação. É palavras dessas que encontramos em O Céu Cairá sobre Nós, publicado em Abril pelas Edições Dom Quixote, a mais recente obra de Lídia Jorge, uma das grandes vozes da Literatura contemporânea, multipremiada, distinguida recentemente com o Prémio Pessoa (2025). Trata-se de um livro formado por trinta crónicas publicadas no Jornal El País entre Agosto de 2021 e Dezembro de 2025. O título é colhido de uma canção tradicional afegã, traduzida por Manuel João Magalhães: “O céu cairá sobre nós/ e ainda assim estarei por cá para vos amedrontar (…)”. Esta é, sem dúvida, uma canção de resistência contra o invasor, com o intuito de proteger o que é considerado mais precioso. Será precisamente este um dos pontos fulcrais deste livro (que emerge, aliás, do conjunto da obra da autora): a solidariedade com os frágeis, os vulneráveis, as vítimas dos grandes imperadores do mundo.
Posicionando-se como “cronista do tempo que passa”, Lídia Jorge reflecte sobre o mundo actual, as suas contingências e vicissitudes, de forma brilhante, ancorada em argumentos e exemplos oriundos não apenas da História, mas também das mais diversas artes, desde a literatura ao cinema, passando pela música ou pela pintura. No âmago da argumentação, emerge sempre a narrativa, a fábula, sendo a arte de narrar um fio que liga ao mundo, cujo alfabeto se vai decifrando, mas também o modo de o interrogar, de o questionar, de o entender. Nesta esteira, verificamos, por exemplo, que o vírus da pandemia se projecta e prolonga no dos extremismos, pois como é referido «Dirigentes primitivos, saídos das cavernas incultas da nova modernidade, acabam por mostrar à sociedade como trazem dentro de si a Idade da Pedra» (p. 17). Perante a loucura de um mundo em conflito, alterações climáticas e intempéries «Somos Cavalos sobre um Telhado de Zinco» parte da imagem poderosa de um cavalo sobre um telhado, devido à tempestade que se abateu sobre o Rio Grande do Sul no Brasil. Essa imagem encerra em si a resistência, mas também a esperança. Ainda face à insanidade das guerras, destaca-se a “parábola da pomba branca” (p.75), partindo de uma história de infância da autora, depois transposta para a guerra da Ucrânia, conduzindo a uma reflexão sobre a natureza avassaladora do crime armado.
A problemática da pobreza, sentida em países periféricos da Europa como a Grécia e Portugal, espelha-se em «carta de Inverno para um escritor longínquo» (p.111) dirigida ao grego Theodor Kallifatides. Partindo da afirmação deste escritor grego de que «há uma guerra contra os pobres e não contra a pobreza», abordam-se afinidades entre Atenas e Lisboa, prolongadas em paralelismos entre os escritores, relativamente às formas de encarar o ofício da escrita, a Literatura e a vida tal como são esboçadas em Outra Vida para Viver, de Kallifatides.
Outro tema relevante e actualíssimo é o da inteligência artificial, as transformações e os perigos que pode acarretar por avançar paralelamente à «estupidez natural». Além disso, salientam-se ainda os jogos políticos de poder, de adulação, que vão destruindo a Terra, «emudecem os que sonham» -como é o caso da pintora Graça Morais que revela sentir dificuldade em pintar, devido ao caos do mundo. Por seu turno, ao reflectir sobre a posição da Grande América, a autora salienta que «Nenhum povo é uma massa uniforme. Nenhum povo pode ser detestado pelo que fazem os seus governantes mesmo quando uma maioria os elege» (p.139). Evidencia-se, assim, a importância de não se cair em perigosas generalizações, nem estereotipizações.
Também a discriminação que afectou ao longo dos tempos as mulheres e que ainda continua de outras formas, patente, por exemplo, no desrespeito pela privacidade. É ainda narrado um novo capítulo da História do Pão, alimento primordial, cuja recusa e manipulação constituem as mais cruéis formas de genocídio, ao longo do tempo e agora também em Gaza. Todavia, perante todos os elementos desumanizadores, emerge a crença no diálogo, sobretudo na palavra («Pertenço ao grupo dos desprevenidos que acreditam no poder dissuasor das palavras» (p.185). É que tal como refere Maffei, «o grande armazém do ver é feito de palavras», é na palavra que tudo começa, delas somos feitos, através delas entendemos o mundo, agimos sobre ele. Deste modo, tal como afirma Lídia Jorge, é necessário “Narrar, narrar sem descanso, narrar sem fim, dar testemunho das contradições dos interesses mortíferos que desequilibram o concerto entre as nações e criam inimigos por medida, é um dever» (p.187). Por isso, narrar é também denunciar, clarificar, interrogar, esculpir a memória colectiva. Aliás, como referiu Peter Handke (citado por Lídia Jorge, p. 186) o mundo precisa de um outro Homero.
Por último, importa aludir ao notável discurso proferido em Lagos, a 10 de Junho de 2025, alicerçado numa sólida fundamentação histórica e literária, esboçando os contornos da nossa identidade como povo, evoca a importância, como elemento agregador, do poeta imortal que foi Camões, culminando com a ideia essencial de que “um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa” ( p. 205).
Em suma, este é um livro enraizado num profundo humanismo, que nos indaga, desvelando, de forma magistral, corajosa, múltiplas formas de questionar o mundo, de entender a raiz do mal, da violência, para, através da palavra, despertar a lucidez, num mundo alienado, desumanizado. Isto porque é necessário narrar, resistir, continuar, pois somos feitos(as) de palavras, como lembra Maffei. Será esse o caminho para acordarmos da “alucinação global”, para que seja escrita essa “imensa palavra tão nova e tão antiga”, (p.188) mais forte do que os mísseis, que, no escuro do caos, acenda o archote da
