Dicionário Cómico - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Dicionário Cómico
José Vilhena
E-primatur, 2018 249   

Sob a chancela de E-primatur, trata-se da última edição do Dicionário Cómico, da autoria do mais popular humorista português do último quartel do século passado. Editada pela primeira vez em 1963, teve diversas reedições, o que espelha a  sua relevância no panorama humorístico e satírico do país, sob a ditadura do salazarismo. Com os seu  textos e desenhos parodiando a  censura do regime anterior ao 25 de Abril, chegou a ser preso pela PIDE por três vezes (em 1962, 1964 e 1966). José Vilhena (1927-2015)  escreveu  70 livros, dos quais 56 com a sua assinatura. Alguns títulos emblemáticos: Este Mundo e o outro (1956), Manual de etiqueta (1960), História da Pulhice Humana (1961), Branca de Neve e os 700 Anões (1962), A Liga dos Fósforos Queimados (1966), O Batoteiro (1968), O Guerra e o Paz (1968), Cheques sem cobertura (1968),  Filho da Mãe (1970) e O Beijo  – como aperitivo para outras comidas (2005). Destacou-se igualmente como pintor, cartunista e humorista, usando como principal meio de exposição revistas e jornais portugueses, como foram os casos de O Mundo RiGaiola AbertaO Fala Barato, O Cavaco e O Moralista

Neste Dicionário Cómico, inventariam-se  alfabeticamente um sem-número de ditos e anedotas que espelham a realidade de 1963 – mas nada desfasado socialmente nos tempos que correm.

Alguns exemplos bem atuais: amor «uma sensação que experimentamos quando somos convocados pela biologia; bonita «Ah! Isso é a mulher do vizinho»; calamidade «as nossas desgraças e os êxitos alheios»; diploma «retalho de pergaminho que serve para cobrir a nudez intelectual»; ETC. «tentativa de fazer com que os outros creiam que não dizemos mais porque não queremos, quando, na verdade, não sabemos»; fome «férias forçadas do estômago»; gato «animal que depois de morto é promovido a lebre»; hospício «edifício que tem uma telha a menos»; ignorante «aquilo que todos nós somos... para os outros»; juramento «o aval da mentira»; liberdade «palavra que os portugueses de menos de 40 anos julgam servir apenas para dar o nome às Avenidas»; modéstia «arte de deixar que os outros descubram por si próprios como nós somos formidáveis»; noivado «prefácio agradável dum livro chato»; órgão «piano desgostoso que se refugiou na religião»; pobre «aquele que, ao morrer, só deixa uma coisa: a viúva»; quadro «o objecto que mais parvoíces ouve do homem»; reforma «o 'week-end' da existência»; Sócrates «filósofo que nunca escreveu uma linha mas celebrizou a cicuta»; trabalho «é o que os outros inventaram para nós fazermos»; uns «parte dos seres humanos que vieram ao mundo para chatear os outros»; vida «breve período durante o qual se respira, aspira, conspira, suspira, transpira e expira; excursão desde o berço até ao cancro»; ou até mesmo zero «algarismo que tem tanta importância na formação dos números, como as nulidades da formação da sociedade».

Uma (re)leitura que nos remete à história contemporânea portuguesa, numa radiografa corrosiva de mentalidades e modas do nosso tempo. 

Sara Mourato